Agro
Trigo enfrenta forte pressão no Brasil: avanço da colheita e competitividade argentina derrubam preços
O mercado brasileiro de trigo atravessa um período de queda consistente nos preços, segundo levantamentos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). O cenário é resultado direto do avanço da colheita nacional, que aumenta a oferta interna, e da recente redução temporária nas taxas de exportação da Argentina, o principal fornecedor do cereal ao Brasil.
Com o corte tarifário, o trigo argentino ganhou maior competitividade, redirecionando parte da demanda brasileira para o país vizinho. Esse movimento reduziu a paridade de importação e obrigou os vendedores domésticos a revisarem suas cotações para baixo, a fim de competir no mercado interno.
Colheita nacional intensifica retração dos preços
De acordo com o Cepea, a queda dos preços tende a se prolongar enquanto persistirem as condições favoráveis à importação e o pico da colheita nacional. Nas principais regiões produtoras, o aumento da disponibilidade do grão amplia a pressão sobre as cotações, tornando o ambiente de comercialização mais competitivo.
Pesquisadores do centro destacam que o mercado deve seguir atento ao comportamento da Argentina, cuja política comercial tem impacto direto na precificação do trigo brasileiro. A qualquer mudança nas tarifas de exportação ou nas condições logísticas, a dinâmica de preços pode se alterar rapidamente.
Mercado regional segue lento no Sul do país
No Sul do Brasil, principal polo produtor, o ritmo de negociações segue reduzido. Segundo a TF Agroeconômica, o mercado permanece travado, com moinhos abastecidos e acompanhando as oscilações cambiais e de preços internacionais.
No Rio Grande do Sul, o desenvolvimento das lavouras é considerado positivo, com chuvas entre 15 mm e 70 mm nas últimas semanas, embora algumas áreas tenham registrado acamamento devido ao vento. Apenas 1% da área total foi colhida até o momento, com expectativa de produção superior a 3,2 milhões de toneladas e produtividade acima de 3.000 kg/hectare.
As indicações de preço apontam para R$ 1.100,00 no interior, com retirada em outubro e pagamento em novembro. O mercado futuro opera estável, com pequenos negócios ao redor de R$ 1.150,00 posto moinho. Para exportação, o valor de dezembro gira em torno de R$ 1.150,00, com deságio de 20% para o trigo destinado à ração. O volume de vendas a termo é menor neste ano, com cerca de 130 mil toneladas, contra 300 mil toneladas em 2024.
Santa Catarina e Paraná registram quedas nos preços pagos ao produtor
Em Santa Catarina, os negócios também estão lentos. Vendedores pedem preços FOB próximos ao que os moinhos estão dispostos a pagar CIF, mas as negociações efetivas são raras. Os preços pagos aos produtores variam de R$ 62,00 a R$ 72,25 por saca, com recuos observados em diversas praças.
No Paraná, a pressão da oferta mantém a tendência de baixa. Moinhos têm adquirido trigo de qualidade pão/melhorador a R$ 1.240,00 FOB, enquanto o trigo gaúcho PH>78 e FN>280 é negociado a R$ 1.040,00 FOB, para entrega entre outubro e novembro.
Importações seguem travadas e prejuízos se ampliam
O mercado de trigo importado permanece praticamente parado, diante da indefinição das políticas argentinas e da oscilação cambial. Os preços do trigo paraguaio e argentino nacionalizado variam entre US$ 230 e US$ 269, conforme o porto e o prazo de entrega.
A média dos preços pagos aos produtores brasileiros recuou 2,04% na última semana, atingindo R$ 66,62 por saca, ampliando as perdas em relação ao custo de produção atualizado, estimado em R$ 74,63 por hectare.
Com um cenário de oferta elevada e concorrência internacional acirrada, o setor produtivo brasileiro precisa acompanhar de perto o comportamento do mercado externo e buscar estratégias para reduzir o impacto das oscilações de preço sobre a rentabilidade da safra.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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