Brasil
Simpósio do INPO reúne especialistas no Rio e reforça papel da ciência na implementação do Tratado do Alto-Mar
O 3º Simpósio BBNJ, primeiro grande encontro científico internacional realizado após a entrada em vigor do Acordo sobre a Conservação e o Uso Sustentável da Diversidade Biológica Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional, conhecido como Tratado do Alto-Mar, foi realizado de 10 a 12 de março, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), organização vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Mara Consultants, o evento reuniu cerca de 700 participantes, entre pesquisadores, representantes de governos, organismos multilaterais e integrantes da sociedade civil, juntos pela busca de um oceano vivo.
Ao longo de três dias, o simpósio se consolidou como espaço de articulação entre ciência, política pública e cooperação internacional em torno de um desafio central: transformar um acordo diplomático de alcance global em instrumentos concretos de implementação. Foram debatidos temas como biodiversidade em áreas além da jurisdição nacional, mudanças climáticas, financiamento, conhecimento tradicional, mecanismos de fiscalização, transferência de tecnologia e formação do futuro Corpo Técnico e Científico do tratado.
Na abertura, o diretor-geral do INPO, Segen Estefen, destacou o peso estratégico do momento para a governança oceânica e o papel da ciência na nova fase do acordo. “O oceano cobre grande parte do planeta. Proteger esse ecossistema é um dos desafios do nosso tempo. O INPO está orgulhoso em apoiar essa iniciativa”, afirmou.
O tratado regula a conservação e o uso sustentável da biodiversidade marinha em áreas além das jurisdições nacionais, localizadas a partir de 200 milhas náuticas da costa. O texto está estruturado em quatro pilares principais: capacitação e transferência de tecnologia marinha; acesso e repartição justa e equitativa de benefícios derivados dos recursos genéticos marinhos; medidas de manejo baseadas em área, como áreas marinhas protegidas; e avaliação de impacto ambiental.
A mesa de abertura reuniu lideranças do setor oceânico e representantes de organismos nacionais e internacionais, entre eles a secretária de Políticas e Programas Estratégicos (Seppe) do MCTI, Andrea Latgé; o diretor da Mara Consultants, Murray Roberts; o chefe da seção de Política Marinha e Coordenação Regional da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco, Julian Barbière; além de representantes da OceanPact e da Oceana Brasil. Também participaram da abertura os copresidentes do Comitê Preparatório do tratado, a embaixadora e representante permanente de Belize junto à ONU, Janine Coye-Felson, e o representante do Departamento de Relações Exteriores e Comércio da Austrália, Adam McCarthy.
Oceano, o principal regulador do clima
No primeiro dia, o simpósio concentrou debates sobre o avanço do conhecimento científico sobre a biodiversidade do alto-mar. No entanto, firmou um entendimento comum: no terceiro painel do dia, cientistas alertaram que a implementação do Tratado do Alto-Mar precisará considerar um oceano em transformação acelerada, com efeitos diretos sobre biodiversidade, segurança alimentar, economia e estabilidade social. “O oceano precisa ser reconhecido como é: o principal regulador do clima”, afirmou a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e enviada especial para o Oceano na COP30, Marinez Scherer.
Mudanças climáticas e a interface entre ciência e política foram discutidos. Pesquisadores trataram sobre os desafios para mapear ecossistemas ainda pouco conhecidos, identificar áreas prioritárias para conservação e integrar novas tecnologias ao estudo do oceano profundo. O painel reforçou o papel da ciência de dados, das imagens de satélite e da inteligência artificial na produção de conhecimento aplicável à implementação do tratado.
Um dos destaques da programação foi a conexão em tempo real com o navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, aproximando o público das atividades científicas realizadas no mar.
Conhecimento tradicional
O conhecimento tradicional e local apareceu como um dos temas mais inovadores do acordo. No segundo dia, pesquisadores e representantes de povos indígenas defenderam que essa participação não se limite ao fornecimento de informações, mas garanta presença real nos espaços de decisão. “É preciso garantir um espaço na mesa de negociação para representações de comunidades costeiras e indígenas”, afirmou a professora da Unifesp e pesquisadora da rede do INPO Leandra Gonçalves.
Além disso, os debates debateram os caminhos para transformar o acordo em mecanismo efetivo de governança. A programação destacou a necessidade de articulação entre ciência, diplomacia e cooperação internacional, além dos desafios jurídicos e institucionais para a implementação do tratado em diferentes países.
Para o diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack, compreender como os sistemas de conhecimento irão subsidiar as decisões futuras é uma tarefa central da nova fase do acordo. “É fundamental compreender os processos pelos quais os sistemas de ciência e conhecimento vão ser capazes de informar as tomadas de decisão e mesmo o progresso da fase de implementação do tratado”, afirmou.
Outro eixo central foi a formação do futuro Corpo Técnico e Científico do tratado, que deverá apoiar a Conferência das Partes (COP) com recomendações baseadas em evidências. “O Corpo Técnico e Científico é crítico para a implementação bem-sucedida do Acordo BBNJ”, destacou o diretor-geral do INPO, Segen Estefen.
Financiamento
No último dia, o foco recaiu sobre financiamento, produção de conhecimento e acesso desigual à infraestrutura científica. Especialistas defenderam que a implementação do tratado dependerá da ampliação do acesso de países em desenvolvimento à pesquisa marinha, à tecnologia e a bases de dados científicas. Para os presentes, o financiamento não é um custo, mas um investimento no futuro.
A repartição justa dos benefícios derivados dos recursos genéticos marinhos também apareceu entre os pontos centrais do encontro. Para os participantes, esse objetivo só será alcançado com inclusão efetiva de cientistas de países em desenvolvimento nas pesquisas e nas descobertas realizadas em alto-mar.
Ao fim do simpósio, a avaliação foi de que o encontro consolidou uma agenda científica para a fase inicial de implementação do tratado. “Estamos muito empolgados com os resultados. Tanto conhecimento e sabedoria compartilhados por 59 painelistas. Identificamos e reconhecemos desafios à frente na implementação do acordo, mas também encontramos boas soluções”, afirmou o diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack.
Brasil
Sancionada lei que prevê oferta de trombolíticos para tratamento de infarto e AVC na rede de urgência e emergência do SUS
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou nesta quarta-feira (2), o Projeto de Lei nº 5.972/2023, que prevê a ampliação da oferta de medicamentos trombolíticos na rede de urgência e emergência no Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Esses medicamentos são utilizados para dissolver os coágulos que podem causar Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico e, quando administrados rapidamente, podem salvar vidas e reduzir o risco de sequelas.
Durante a cerimônia, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, assinou a portaria que institui o Comitê de acompanhamento da Implementação das Linhas de Cuidado dos Agravos Cerebrovasculares e Cardiovasculares Tempo-Dependentes: AVC e IAM, no âmbito do Ministério da Saúde. O grupo será responsável por analisar e propor ações para tornar os medicamentos mais acessíveis e qualificar a assistência aos pacientes.
Padilha destacou que a regulamentação da lei terá como foco tornar mais ágil a jornada do paciente na rede de urgência e emergência. “Nos casos de infarto e AVC, cada minuto conta. Vamos trabalhar com especialistas, estados e municípios para transformar a lei em atendimento mais rápido, desde o diagnóstico até a chegada do paciente à unidade de referência. Esse tempo que conseguimos reduzir pode representar uma vida salva”, destacou o ministro.
Atualmente, os protocolos do SUS já preveem o uso de trombolíticos nos serviços de urgência e emergência, incluindo as UPAs. No entanto, a aquisição desses medicamentos é realizada pelos gestores locais. O comitê avaliará estratégias para aprimorar a oferta e ampliar a disponibilidade desses medicamentos na rede pública.
O Brasil registra entre 300 mil e 400 mil casos de infarto por ano. Em 2025, o SUS também contabilizou 292 mil atendimentos por Acidente Vascular Cerebral (AVC), dos quais 218 mil foram relacionados ao AVC isquêmico.
Os medicamentos trombolíticos podem ser utilizados tanto no Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) quanto no Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, conforme avaliação clínica. Eles atuam na dissolução dos trombos que obstruem os vasos sanguíneos, ajudando a restabelecer a circulação do sangue.
A rapidez no diagnóstico e no início da terapia aumenta as chances de sobrevivência e reduz o risco de sequelas. Nos casos de infarto, o uso do trombolítico pode ser indicado principalmente quando procedimentos de maior complexidade, como a angioplastia, não estão disponíveis no tempo recomendado. Assim, o paciente pode receber o medicamento enquanto a continuidade do cuidado é organizada na rede.
O SUS já conta com uma linha de cuidado para o infarto agudo do miocárdio e o AVC, com protocolos para diagnóstico e tratamento. No caso do infarto, a assistência inclui o acesso à reperfusão, procedimento destinado a restabelecer o fluxo sanguíneo. Os trombolíticos integram esse atendimento e também podem ser utilizados pelo Serviço de Atendimento Móvel e Urgência (SAMU 192), conforme indicação clínica.
Muitas pessoas com sinais de infarto procuram diretamente a unidade de saúde mais próxima, que, em diversos municípios, é uma UPA. Nessas unidades, as equipes podem fazer o diagnóstico, avaliar a indicação clínica e, quando necessário, iniciar o tratamento com trombolíticos. A nova lei permitirá avaliar formas de apoiar e aprimorar essa oferta, aproximando o tratamento da população.
Uso de trombolíticos pelo SAMU 192
Desde 2014, o Ministério da Saúde possibilita, por meio da Portaria nº 2.777/2014, o repasse de recursos para o uso do trombolítico tenecteplase pelo SAMU 192. O medicamento pode ser administrado nas Unidades de Suporte Avançado de Vida habilitadas, após avaliação da equipe de saúde e conforme os protocolos assistenciais.
Atualmente, 102 unidades do SAMU 192 estão habilitadas para receber o recurso em sete estados. O Ceará concentra 28 unidades, seguido por Minas Gerais, com 22; Sergipe, com 16; Rio Grande do Norte, com 13; Bahia, com 12; São Paulo, com nove; e Paraíba, com duas.
Em 2025, foram registradas 861 aplicações de tenecteplase pelo SAMU 192 em todo o país. O aprimoramento da oferta do medicamento poderá ampliar o número de unidades da rede de urgência e emergência, incluindo as UPAs, preparadas para iniciar o atendimento. Assim, pacientes que vivem em localidades com acesso mais limitado a procedimentos de maior complexidade poderão receber o trombolítico em tempo oportuno e ganhar tempo até a chegada à unidade de referência para a continuidade do tratamento.
Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
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