Agro
Clima, Logística e Mercado Global Impactam a Soja: Preços Estáveis no Brasil e Oscilações em Chicago
Produção Nacional é Revisada e Clima Reduz Potencial das Lavouras
O mercado brasileiro de soja iniciou a semana sob forte influência do clima e da logística, que seguem determinando o ritmo das negociações e impactando as projeções de produção. Segundo a TF Agroeconômica, a safra nacional foi revisada para 178 milhões de toneladas, refletindo as perdas expressivas causadas pela estiagem no Rio Grande do Sul.
A seca afetou de forma irreversível o potencial produtivo de regiões críticas do estado, levando produtores a adiarem novas vendas enquanto aguardam dados atualizados da Emater/RS-Ascar. Nos principais polos agrícolas — Ijuí, Cruz Alta, Passo Fundo e Santa Rosa — a saca foi cotada em R$ 118,00, enquanto no Porto de Rio Grande o valor se manteve em R$ 130,00, sem variações no dia.
Santa Catarina e Paraná Enfrentam Estabilidade e Dificuldades Logísticas
Em Santa Catarina, o mercado manteve estabilidade, com foco no abastecimento das agroindústrias de proteína animal. No Porto de São Francisco do Sul, a saca foi negociada a R$ 128,66, com leve recuo de 0,26%.
Já o Paraná, com 42% da área colhida, enfrenta gargalos logísticos expressivos. De acordo com o DERAL, filas de até 15 quilômetros foram registradas no acesso ao Porto de Paranaguá, levando produtores a recorrer a armazenagem temporária em silo bolsa. Em Cascavel, a saca subiu para R$ 116,23, enquanto Maringá e Ponta Grossa registraram R$ 122,50.
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: Atrasos e Casos de Ferrugem Asiática Elevam Custos
No Mato Grosso do Sul, a colheita atinge 6,2% da área, um atraso de 11 pontos percentuais em comparação com o ciclo anterior. Mais de 60 casos de ferrugem asiática foram confirmados, aumentando os custos de produção e pressionando as margens. Os preços variam entre R$ 107,00 e R$ 111,00 por saca.
No Mato Grosso, a colheita já alcança 78,34% da área, segundo o IMEA. A grande concentração de oferta e os gargalos logísticos, no entanto, reduzem a competitividade. Nas principais praças, as cotações variam entre R$ 101,50 e R$ 109,30.
Alta do Petróleo Impulsiona a Soja em Chicago
No cenário internacional, os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Chicago (CME) registraram alta expressiva nesta terça-feira (3), acompanhando o forte avanço do petróleo Brent e do WTI. Por volta das 7h20 (horário de Brasília), os ganhos variavam entre 11,25 e 14,75 pontos, levando o contrato de março a US$ 11,61, o de maio a US$ 11,78 e o de julho a US$ 11,91 por bushel.
O óleo de soja avançou 1,2%, cotado a 63,47 cents de dólar por libra-peso, enquanto o farelo subiu 0,9%, a US$ 315,60 por tonelada curta. O petróleo segue em forte valorização, com o Brent atingindo US$ 82,72 e expectativa de chegar aos US$ 100,00, cenário que tem impulsionado os óleos vegetais e o complexo soja.
Correção Técnica Interrompe Sequência de Altas Recentes
Na segunda-feira (2), o mercado internacional da soja apresentou movimento misto, com realização de lucros após uma sequência de altas. Segundo a TF Agroeconômica, o contrato de março recuou 0,63%, a 1.150,00 cents por bushel, enquanto o de maio caiu 0,58%, a 1.164,00 cents.
O farelo de soja registrou queda de 2,28%, cotado a US$ 308,30 por tonelada curta, e o óleo de soja manteve alta de 1,44%, a 62,17 cents por libra-peso, impulsionado pelo avanço do petróleo e pela forte demanda global.
Perspectivas: Clima e Volatilidade Global Devem Manter Pressão no Mercado
O mercado da soja segue marcado por alta volatilidade, influenciado tanto por fatores externos — como o comportamento do petróleo e as tensões geopolíticas — quanto por questões internas, como problemas climáticos e gargalos logísticos.
As próximas semanas devem manter o mercado em alerta, com atenção redobrada às revisões de safra, ritmo de embarques norte-americanos e condições climáticas que podem redefinir o desempenho da colheita brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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