Agro
Mercado de milho segue travado no Brasil, mas contratos futuros oscilam com influência internacional
O mercado de milho no Brasil permanece travado em diversas regiões produtoras, com baixa liquidez e grande divergência entre as ofertas das indústrias e as pedidas dos produtores. Ao mesmo tempo, os contratos futuros do cereal operam com volatilidade tanto na Bolsa Brasileira (B3) quanto na Bolsa de Chicago (CBOT), refletindo fatores climáticos, geopolíticos e de demanda global.
Negociações travadas no Sul e no Centro-Oeste
De acordo com a TF Agroeconômica, o mercado gaúcho segue com movimentação limitada. A média estadual do milho no Rio Grande do Sul subiu para R$ 62,18/saca, frente aos R$ 61,86 da semana anterior, mas o avanço foi insuficiente para destravar o mercado. O contrato de fevereiro/26 no porto permanece em R$ 69,00/saca, sem alterações significativas.
Em Santa Catarina, o cenário é semelhante. Produtores pedem valores próximos de R$ 80,00/saca, enquanto as indústrias oferecem em torno de R$ 70,00/saca, o que impede o avanço das negociações. No Planalto Norte, poucos negócios são reportados entre R$ 71,00 e R$ 75,00/saca, confirmando o ritmo lento das transações.
No Paraná, a falta de consenso também persiste. As pedidas seguem próximas de R$ 75,00/saca, enquanto as ofertas giram em torno de R$ 70,00/saca CIF. A diferença de preços mantém o ambiente praticamente paralisado. Já no Mato Grosso do Sul, as cotações variam entre R$ 52,00 e R$ 56,00/saca, influenciadas pela ampla oferta e pela postura cautelosa de vendedores e compradores.
Cotações futuras oscilam na B3 e em Chicago
A quarta-feira (3) começou com os preços futuros do milho em queda na Bolsa Brasileira (B3). Por volta das 10h, os contratos variavam entre R$ 71,31 e R$ 76,63.
- Janeiro/26: R$ 75,54 (queda de 0,61%)
- Março/26: R$ 76,63 (baixa de 0,42%)
- Maio/26: R$ 75,73 (queda de 0,58%)
- Julho/26: R$ 71,31 (recuo de 0,13%)
Na Bolsa de Chicago (CBOT), o movimento também foi de baixa no mesmo horário.
- Dezembro/25: US$ 4,36/bushel (-2 pontos)
- Março/26: US$ 4,46/bushel (-3,25 pontos)
- Maio/26: US$ 4,54/bushel (-2,75 pontos)
- Julho/26: US$ 4,60/bushel (-2,25 pontos)
Segundo o portal Successful Farming, o mercado internacional foi impactado por novas tensões geopolíticas após o presidente russo Vladimir Putin ameaçar isolar a Ucrânia do Mar Negro, em resposta a ataques a petroleiros russos. O episódio aumenta a preocupação sobre o escoamento de commodities agrícolas — como milho e trigo — pelos portos ucranianos.
Alta recente reflete demanda e preocupações climáticas
Apesar das quedas pontuais, o milho vinha de um ciclo de valorização, impulsionado por expectativas sobre a segunda safra brasileira e pela maior demanda interna e externa. Na B3, os contratos haviam avançado acompanhando o movimento internacional, mesmo diante da desvalorização do dólar.
Analistas apontam que os atrasos no plantio da soja reduzem a janela ideal para o cultivo do milho safrinha, elevando o risco de menor produtividade. Esse fator adiciona um “prêmio de risco” às operações e estimula ajustes de preços. O Cepea também observa aumento na procura doméstica, o que reforça a sustentação dos valores nas principais praças.
Na última sessão de alta, o contrato janeiro/26 fechou a R$ 76,47, com avanço de R$ 2,27 no dia e R$ 4,51 na semana. O março/26 subiu para R$ 77,41, enquanto o maio/26 encerrou a R$ 76,43, acumulando ganhos semanais expressivos.
Mercado internacional segue atento ao Mar Negro
Em Chicago, o movimento de valorização foi sustentado pelo ritmo positivo das exportações norte-americanas e pelas novas tensões geopolíticas no Leste Europeu. A cotação de dezembro chegou a subir 1,21%, para US$ 4,38/bushel, e o contrato de março avançou 1,12%, a US$ 4,50/bushel, diante da preocupação com o fluxo de grãos ucranianos.
O conflito entre Rússia e Ucrânia segue como um dos principais fatores de instabilidade no comércio internacional de grãos, especialmente no milho e no trigo, que têm grande participação nos portos do Mar Negro.
Perspectivas
Especialistas avaliam que o cenário do milho deve continuar marcado por alta volatilidade, com o mercado brasileiro condicionado ao ritmo da safra de verão, à demanda interna aquecida e ao comportamento das exportações globais.
Enquanto as negociações domésticas seguem lentas, os agentes permanecem atentos à evolução do plantio da soja, às cotações internacionais do petróleo e às tensões no Leste Europeu, fatores que devem continuar ditando o ritmo dos preços nas próximas semanas.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Matopiba desponta como nova fronteira da produtividade no Brasil
O avanço do agronegócio está mudando o mapa da produtividade brasileira e levando parte do dinamismo econômico para o Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Enquanto o indicador nacional cresceu 18,7% entre 2002 e 2019, três Estados da região registraram alguns dos maiores aumentos do País.
O Piauí liderou o crescimento da produtividade do trabalho no período, com alta de 103%. O Maranhão avançou 86% e o Tocantins, 69,7%. Os resultados acompanham a expansão da fronteira agrícola e indicam que a transformação provocada pelo campo ultrapassou o aumento da área plantada e do volume colhido.
Os dados fazem parte do estudo “Missing the Productivity: Estimating Labor Productivity in Brazilian Municipalities (2002–2019)”, dos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz. Divulgado em julho, o trabalho construiu uma base anual com informações dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros.
O levantamento é um pré-print, versão que ainda não passou pela etapa definitiva de revisão acadêmica. Embora tenha alcance nacional e não seja dedicado exclusivamente ao Matopiba, o estudo revela grandes ganhos de produtividade nas fronteiras agropecuárias e uma evolução mais lenta nos Estados historicamente industrializados.
A produtividade analisada não é o rendimento das lavouras por hectare. O indicador mede quanto valor é produzido por trabalhador. Ele aumenta quando a incorporação de máquinas, tecnologia, qualificação e métodos mais eficientes de gestão permite ampliar a produção sem elevar na mesma proporção o número de pessoas ocupadas.
No Brasil, a agropecuária foi o setor que apresentou o maior avanço entre 2002 e 2019. A produtividade do trabalho no campo cresceu 80,1%, diante de aumentos de 10,3% nos serviços e de apenas 5,4% na indústria.
O resultado ajuda a explicar por que regiões antes com menor participação na economia nacional passaram a atrair armazéns, transportadoras, revendas de máquinas e insumos, instituições financeiras, empresas de tecnologia, indústrias de alimentos e prestadores de serviços.
Para Alan Bueno, professor da Universidade Estadual do Paraná e um dos autores do estudo, o avanço do Matopiba pode ser comparado à transformação ocorrida no Centro-Oeste a partir da segunda metade do século passado.
“O Matopiba é o novo ouro. É o que foi o Centro-Oeste nos anos 1950. Trata-se de um crescimento que faz mudar a realidade regional”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o campo passou a funcionar como ponto de partida de uma rede econômica mais ampla. “O agro converteu-se no catalisador de uma vasta rede econômica, envolvendo transporte, comércio, construção civil, tecnologia, crédito e serviços”, explicou.
A expansão foi sustentada principalmente pela produção de soja, milho e algodão, além da pecuária. O desenvolvimento de sementes adaptadas ao Cerrado, a correção dos solos, a mecanização e a agricultura de precisão permitiram que a região ampliasse sua participação na produção nacional.
Os dados mais recentes indicam que o movimento continuou depois de 2019, último ano abrangido pelo estudo. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia colham juntos aproximadamente 41,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, aumento próximo de 9% sobre o ciclo anterior.
A Bahia deverá liderar a produção regional, com cerca de 15 milhões de toneladas. O Tocantins aparece em seguida, com 9,74 milhões, seguido pelo Maranhão, com 9,05 milhões, e pelo Piauí, com 7,58 milhões de toneladas.
Somente a soja deve alcançar 25,4 milhões de toneladas nos quatro Estados, o equivalente a aproximadamente 14% da produção brasileira da oleaginosa. O resultado consolida o Matopiba como fornecedor relevante para as indústrias de óleo, farelo, rações, carnes e biocombustíveis.
O avanço da produtividade, porém, não significa que os benefícios econômicos sejam distribuídos automaticamente. A mecanização reduz a necessidade de algumas tarefas manuais, ao mesmo tempo que amplia a procura por operadores de máquinas, técnicos agrícolas, engenheiros agrônomos, mecânicos e profissionais de tecnologia e logística.
Sem capacitação local, parte dessas vagas pode ser preenchida por trabalhadores vindos de outras regiões. O aumento da riqueza também depende da capacidade dos municípios de converter maior arrecadação em educação, saúde, saneamento e infraestrutura.
Outro desafio é evitar que o Matopiba permaneça apenas como fornecedor de produtos primários. A instalação de esmagadoras de soja, fábricas de rações, frigoríficos, usinas de biocombustíveis e indústrias de alimentos permitiria agregar valor à produção e manter uma parcela maior da renda na própria região.
O crescimento também aumenta a pressão sobre estradas, ferrovias, armazéns e terminais de exportação. Sem infraestrutura compatível, parte do ganho obtido dentro das propriedades pode ser perdida com fretes elevados, filas e demora no escoamento.
Há ainda o desafio de conciliar a expansão produtiva com a conservação do Cerrado, a regularização fundiária e a inclusão da agricultura familiar. A competitividade futura da região dependerá não apenas do volume produzido, mas também da capacidade de comprovar a origem e a sustentabilidade dos produtos.
O estudo mostra que a produtividade brasileira começou a mudar de endereço. O Matopiba já produz mais por trabalhador e movimenta uma cadeia econômica cada vez maior. O próximo passo será transformar essa eficiência em indústria, empregos qualificados e melhoria permanente da renda da população.
Fonte: Pensar Agro
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