Política Nacional
Especialistas defendem modernização das contas públicas e do Orçamento em evento da OCDE
O desafio de tornar as contas públicas e o Orçamento da União mais modernos e transparentes — utilizando, inclusive, a inteligência artificial — está no centro dos debates do evento internacional que o Senado sedia a partir desta quinta-feira (11): a 2ª Reunião Anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de Autoridades Parlamentares de Orçamento da América Latina.
O encontro reúne especialistas, consultores legislativos e representantes de instituições fiscais independentes de diversos países. Também serão discutidos temas como governança fiscal, transparência orçamentária e comunicação pública.
Ao abrir o evento, o senador Efraim Filho (PL-PB) afirmou que a responsabilidade fiscal voltou ao centro do debate público na América Latina. Efraim, que é o presidente da Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional, ressaltou que análises independentes, estimativas de impacto e avaliações de políticas públicas fortalecem o processo decisório e contribuem para qualificar o debate democrático.
Ele também disse que os países latino-americanos precisam recuperar a capacidade de investimento e estimular a atividade econômica, e ao mesmo tempo preservar as políticas sociais e manter a confiança nas instituições e nas regras fiscais.
Ao tratar especificamente do Brasil, o senador defendeu um ambiente econômico mais simples, previsível e seguro para quem empreende, investe e gera emprego. Para isso, argumenta ele, o país precisa avançar nos processos de planejamento e fiscalização dos gastos públicos, na simplificação orçamentária, na responsabilidade fiscal e na transparência.
— O tripé nefasto do custo Brasil, formado por complexidade tributária, burocracia excessiva e insegurança jurídica, não será vencido em uma tacada só. É uma luta permanente, feita no dia a dia, (…) em busca de um país que tenha liberdade econômica e valorize quem empreende.
Reforma orçamentária
A conferência magna do evento contou com a participação do professor Nelson Machado, que já foi ministro de duas pastas: Planejamento e Previdência.
Machado defendeu a modernização do modelo orçamentário brasileiro — que, segundo ele, dificulta a execução eficiente das políticas públicas. O professor afirmou que é necessária uma atualização que viabilize simultaneamente planejamento, sustentabilidade fiscal e entrega de resultados à população.
Entre os problemas a serem resolvidos, Machado apontou a complexidade do sistema orçamentário, a baixa integração entre os instrumentos de planejamento, a rigidez das despesas, a fragmentação do orçamento e a ausência de uma visão de médio e longo prazo. O ex-ministro também criticou os frequentes contingenciamentos de recursos e as regras fiscais que, segundo ele, operam de forma desarticulada entre si.
— É inimaginável que um gestor que está lá na ponta, no dia a dia, tendo que entregar serviços para a população (como escola funcionando, posto de saúde atendendo, estradas conservadas), tenha que se amarrar a um orçamento que é liberado numa regra de execução e que, no meio do caminho, muda. É o que eu chamo de efeito sanfona.
Para Machado, a recente reforma tributária é um exemplo que pode servir de inspiração para uma futura reforma orçamentária, já que o processo de elaboração do novo sistema tributário foi baseado no diálogo entre governo, Congresso, sociedade civil e setor produtivo.
Ele acrescentou que o país já compreendeu a importância de se arrecadar de forma eficiente, mas precisa avançar na melhoria da qualidade do gasto público.
Governança
Chefe da Divisão de Gestão Pública e Orçamento da OCDE, Jón Blöndal destacou que muitos países hoje enfrentam desafios semelhantes: envelhecimento da população, pressões sobre os sistemas de saúde e aumento das despesas públicas.
Segundo ele, a solução passa por uma reavaliação permanente dos programas governamentais e seus respectivos gastos, para verificar se programas criados em outros contextos continuam respondendo às necessidades atuais da sociedade.
— Antigamente nossas sociedades eram diferentes, os desafios eram diferentes, nós precisamos olhar para esses programas e avaliar quão relevantes eles ainda são. E isso não é um exercício técnico; é um exercício político. E, para que as políticas se alinhem, é necessário um entendimento público geral.
Blöndal defendeu o fortalecimento da transparência, da supervisão e da responsabilidade fiscal. Também enfatizou a importância de escritórios parlamentares de orçamento e conselhos fiscais independentes para a melhoria da governança pública.
Inteligência artificial
O presidente do Grupo de Trabalho de Orçamento da OCDE, Mark Hadley, observou que a inteligência artificial (IA) já está transformando o modo como instituições fiscais e orçamentárias avaliam grandes volumes de dados e produzem análises.
Ele contou que redes de especialistas ligadas à OCDE vêm explorando formas de utilizar as ferramentas de IA em estudos, projeções e processos decisórios.
Para Efraim Filho, a IA representa uma nova fronteira para a gestão pública e para o ambiente econômico.
— A inteligência artificial pode ajudar instituições a analisar grandes volumes de dados, identificar riscos, comparar cenários e liberar equipes técnicas para atividades com maior valor estratégico. Mas a sua adoção deve vir acompanhada de transparência, responsabilidade e controle humano.
Cooperação internacional
O consultor-geral de Orçamento do Senado, Flávio Diogo Luz, destacou a importância da cooperação internacional para o aperfeiçoamento das instituições responsáveis pela análise e pela fiscalização das contas públicas.
Ele lembrou que o encontro reúne profissionais de países que enfrentam desafios semelhantes, o que cria um ambiente propício para a troca de experiências e boas práticas.
— Ao compartilhar experiências, boas práticas e dificuldades, fortalecemos a capacidade de nossas instituições de oferecer análises independentes, qualificadas e úteis para o processo decisório — argumentou.
Mark Hadley, da OCDE, frisou que a cooperação entre os países permite aperfeiçoar instrumentos de supervisão fiscal e fortalecer a atuação dos parlamentos na fiscalização das contas públicas.
Evento internacional
O evento segue com debates temáticos até esta sexta-feira (12). Entre os países representados no evento estão Brasil, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Espanha, Peru e Portugal, entre outros.
Também participam do encontro consultores legislativos do Senado e da Câmara dos Deputados, além de integrantes da Instituição Fiscal Independente (IFI).
Outros temas a serem abordados nas reuniões são: recuperação das finanças públicas, supervisão orçamentária, atualizações legislativas comprometidas com a transparência, desafios da comunicação clara e eficaz para instituições de fiscalização e controle, entre outros.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Política Nacional
Inep nega mudança nos critérios da redação do Enem e estuda uso de IA para agilizar divulgação de notas
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negou mudanças nos critérios de correção da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e informou que estuda usar inteligência artificial (IA) para acelerar a divulgação das avaliações pedagógicas. A declaração foi feita durante audiência pública da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados realizada na quarta-feira (10).
O debate ocorreu após questionamentos de estudantes sobre supostas inconsistências e falta de transparência nas notas da edição de 2025.
A audiência atendeu a requerimento do deputado Túlio Gadelha (PSD-PE). Segundo ele, estudantes relataram divergências matemáticas nos boletins e possíveis alterações em orientações internas do exame.
O diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Eduardo Carvalho Sousa, afirmou que a matriz de referência da redação é a mesma desde 2009.
Segundo Sousa, houve apenas aumento do rigor na identificação de textos produzidos a partir de modelos padronizados.
“Estamos com uma indústria de redações pré-fabricadas, no qual a pessoa só muda algumas frases. O que aconteceu foi um rigor um pouco maior com essas redações pré-prontas”, disse.
O diretor afirmou que os corretores recebem treinamento específico e que cada redação é avaliada por dois profissionais independentes, sem conhecimento da nota atribuída pelo outro avaliador.
Segundo ele, o sistema encaminha a redação para nova análise quando a diferença entre as notas supera 80 pontos em uma competência.
O Inep também informou que iniciará uma prova de conceito com empresas de tecnologia para avaliar o uso de IA no processo de correção.
A intenção é reduzir o prazo para divulgação da folha espelho e da avaliação pedagógica da redação. Atualmente, essas informações são disponibilizadas cerca de 60 dias após a divulgação das notas oficiais.

Estudantes pedem mais transparência
Representantes estudantis defenderam que os critérios de correção sejam mais claros para os participantes do exame.
A diretora de Relações Institucionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), Letícia Holanda, afirmou que muitos jovens das periferias têm dificuldade para compreender editais e documentos do Enem.
Segundo ela, conhecer melhor os critérios de avaliação ajuda os estudantes a planejar os estudos e aumenta a confiança no exame.
Holanda também defendeu cautela na adoção de novas tecnologias.
“O uso da tecnologia precisa ser feito com controle público e social para termos fortalecimento da transparência. Sem isso, a IA pode ser prejudicial e reforçar vícios e padrões nas redações”, avaliou.
O presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Paulo Henrique Viana, defendeu a criação de mecanismos mais simples para contestação das notas.
“Precisamos pensar a folha espelho como um instrumento onde o estudante veja onde está errando ou identifique uma inconsistência, criando um mecanismo para apresentar isso formalmente ao Inep”, sugeriu.
Sousa informou que o canal oficial para registro de demandas atualmente é a plataforma Fala BR.
Integração de avaliações
Representando o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a coordenadora de educação digital do Paraná, Lorena Pantaleão da Silva, destacou o papel da redação na formação dos estudantes.
Segundo ela, o exame estimula a cidadania, o pensamento crítico e a capacidade de argumentação.
Silva afirmou ainda que a integração entre o Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) poderá ajudar as secretarias estaduais a monitorar o ensino médio e acompanhar os resultados da aprendizagem.
Da Redação – GM
Fonte: Câmara dos Deputados
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