Brasil
Entre ciência e resistência: ABC completa 110 anos como pilar do conhecimento no Brasil
A Academia Brasileira de Ciências (ABC), entidade independente e sem fins lucrativos fundada em 1916, completou 110 anos de existência no dia 3 de maio, consolidando-se como uma das principais instituições de articulação científica do país. Desde sua criação, a associação atua na valorização da ciência, na defesa de seu papel estratégico para o desenvolvimento nacional e na promoção do diálogo entre comunidade científica e sociedade.
Ao longo de mais de um século, a ABC atravessou diferentes contextos políticos e científicos: ora marcados por avanços, ora marcados por restrições à liberdade científica. Para a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, a trajetória da instituição reflete um compromisso contínuo com o país.
“A Academia Brasileira de Ciências tem um papel histórico na defesa da ciência como projeto de país. Ao longo desses 110 anos, a instituição ajudou a manter viva a produção de conhecimento mesmo em períodos adversos, reafirmando que investir em ciência é investir no desenvolvimento, na soberania e no futuro do Brasil.”
Em comemoração à data, a ABC realizará diversos seminários e palestras, que se estenderão até abril de 2027. O seminário inaugural foi realizado no dia 28 de abril, na sede da academia, localizada no Rio de Janeiro, com presenças ilustres da comunidade científica. Além disso, o encontro marcou o lançamento oficial do Centro de Memória da ABC José Murilo Carvalho, um repositório virtual que conta a história da entidade. O acervo completo é gerenciado pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast).
Na ocasião, a presidente da ABC, a biomédica, professora e pesquisadora Helena Nader, demarcou a importância da academia, reforçando não existir desenvolvimento sustentável, justiça social ou soberania nacional sem ciência. “Há 110 anos, a Academia Brasileira de Ciências nasceu da convicção de que o conhecimento científico constitui um dos pilares fundamentais para o progresso das nações e para o bem-estar da humanidade. Desde sua criação, a academia tem acompanhado e contribuído para a construção da ciência no Brasil, reunindo gerações de pesquisadores comprometidos com a expansão das fronteiras do conhecimento e com o desenvolvimento do país”, afirmou, ao ler um manifesto escrito em alusão aos 110 anos da entidade.
ABC: central na construção de uma ciência resiliente
Antes da formalização da ABC, duas tentativas frustradas de criação de uma academia de ciências foram registradas no Rio de Janeiro (RJ). Posteriormente, a mesma cidade abrigou a criação oficial da instituição, liderada por um grupo de pesquisadores da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. A ABC foi instituída como “Sociedade Brasileira de Ciências”, ganhando o nome de academia logo após, em 1922.
Os primeiros anos foram marcados por eventos históricos e instrumentos que se mantém na ABC. Entre eles, está a revista da Sociedade Brasileira de Ciências, que se tornou os Anais da ABC. Editada ininterruptamente até os dias atuais, a revista é considerada um dos periódicos científicos mais respeitados do país. No mesmo ano de sua criação, foi criada também a Rádio Sociedade, primeira emissora radiofônica do país.
O primeiro marco histórico da organização é datado em 1919, pouco após a criação, quando foi realizada uma expedição para observação de um eclipse solar em Sobral liderada por Henrique Morize, primeiro presidente da ABC. As observações do evento mostraram, pela primeira vez, a deflexão da luz das estrelas quando passam rente ao Sol. O registro confirmou a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein. O físico alemão chegou a escrever sobre o evento anos mais tarde: “O problema concebido pela minha mente foi respondido pelo luminoso céu do Brasil”, frase atribuída a Einstein em dedicatória enviada em 1925 ao jornalista e empresário brasileiro Assis Chateaubriand.
E essa não foi a única presença de personalidades mundiais da ciência na ABC. Einstein foi recebido pela entidade e se tornou membro correspondente em maio de 1925. Além dele, a cientista ganhadora de dois prêmios Nobel, Marie Curie, também foi recebida e incorporada à organização como membro correspondente. Ela é a primeira mulher membro da ABC, já reconhecida internacionalmente como uma das principais cientistas de sua época.
Palestrante no evento de lançamento dos seminários em comemoração ao aniversário da ABC, o físico e historiador da ciência, Ildeu de Castro Moreira comentou os acontecimentos: “Obviamente, as pessoas de mais destaque no mundo naquele momento, em escala mundial da ciência, eram o Einstein e a Marie Curie. E os dois estiveram aqui. Um em 1925, outro em 1926. E a academia usou bem isso. Os convidou para fazer comunicações, fez sessões de homenagem, os transformou em membros correspondentes”, disse. Moreira trabalhou em conjunto com o historiador e cientista político, José Murilo de Carvalho, no livro “Ciência no Brasil: 100 anos da ABC”.
Consolidação
Após criada, a academia seguiu eventos históricos, tanto como participante quanto como reflexo desses processos. Seu período de consolidação se deu ao longo de um longo contexto histórico: o governo de Getúlio Vargas. Na primeira atuação de Vargas, durante o governo provisório, entre 1930 e 1934, a ABC foi reconhecida como instituição de utilidade pública, voltada à cultura e ao desenvolvimento da ciência.
No Estado Novo, período ditatorial do segundo governo de Vargas, que durou de 1937 a 1945, a academia passou pela supressão de liberdades; no entanto, membros que ocupavam postos no governo contribuíram para a criação de faculdades e universidades no país. Acadêmicos estiveram presentes na fundação das universidades de São Paulo, em 1934, e do Distrito Federal, em 1935, e da Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), em 1937.
Foi o terceiro governo Vargas, quando o ex-presidente foi eleito em 1950, que novas estruturas de ciência e tecnologia foram criadas no país, dando mais robustez e segurança à ABC. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq) foi criado com participação fundamental da ABC, em 1951, junto da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que também contou com a participação de membros em sua criação.
As instituições aumentaram o ecossistema científico, com o CNPq focado em pesquisa e bolsas, e a Capes na formação de professores e avaliação de programas de ensino. Membros também estiveram presentes na redemocratização, em 1985, e participaram da construção da Constituição Cidadã de 1988, realizada na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988.
Hoje, a ABC segue realizando o assessoramento científico e representando a comunidade de pesquisadores do Brasil. Para a ministra Luciana Santos, o papel da academia segue sendo extremamente importante, e acompanha o progresso da ciência nacional.
“No cenário atual, a Academia Brasileira de Ciências segue sendo uma referência fundamental para o país, contribuindo para qualificar o debate público e orientar políticas baseadas em evidências. Em um momento em que o Brasil retoma o investimento em ciência e tecnologia, o papel da ABC se torna ainda mais estratégico para conectar conhecimento científico, desenvolvimento e melhoria da vida da população”, finalizou.
Brasil
Fórum de Mulheres na Saúde propõe diálogo sobre cuidado integral e fortalecimento das políticas públicas para mulheres no DF
A capital federal sediou, na tarde desta segunda-feira (18), o Fórum de Mulheres na Saúde, espaço de diálogo e construção coletiva voltado ao fortalecimento das políticas públicas de saúde para as mulheres brasileiras. O encontro, promovido pelo Ministério da Saúde (MS), reuniu representantes do Governo Federal, profissionais da saúde, pesquisadoras, movimentos sociais e lideranças femininas para debater temas como saúde mental, saúde sexual e reprodutiva, prevenção das violências, climatério, maternidade e acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Participaram cerca de 130 pessoas.
O Fórum de Mulheres na Saúde integra uma mobilização nacional voltada ao fortalecimento da participação social e da construção de estratégias para ampliar o acesso, a qualidade do atendimento e a integralidade do cuidado às mulheres em todo Brasil. Na abertura do evento, em Brasília (DF), foram exibidos dois vídeos institucionais de saudação dos ministros da Saúde e das Mulheres. As duas Pastas são parceiras na realização do Fórum, que foi lançado em outubro de 2025, durante cerimônia oficial na Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou em sua fala, que a saúde das mulheres é prioridade. Ele destacou o programa Agora Tem Especialistas e ressaltou os avanços promovidos pelo MS para ampliar o cuidado integral em todas as fases da vida. “A saúde das mulheres é prioridade absoluta do SUS. Elas são maioria da população, maioria entre os profissionais de saúde e também quem mais utiliza os serviços do Sistema Único de Saúde. Estamos ampliando o cuidado integral, fortalecendo os direitos sexuais e reprodutivos, a prevenção das violências e o acesso ao diagnóstico e tratamento de doenças que impactam diretamente a vida das mulheres brasileiras”, pontuou.
Padilha também enfatizou ações voltadas ao fortalecimento do planejamento reprodutivo, à ampliação do acesso ao método contraceptivo Implanon pelo SUS, ao enfrentamento dos cânceres de mama e do colo do útero, e às iniciativas de acolhimento às mulheres em situação de violência. Este é um ano histórico, quando são celebrados dois marcos: os 42 anos do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) e os 22 anos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Mulheres (PNAISM).
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, reforçou a importância do fórum como espaço de escuta e construção de políticas públicas alinhadas às necessidades das brasileiras. “Toda vez que me reúno com mulheres, percebo que a prioridade é a saúde, seja mental, ginecológica, sexual e reprodutiva ou o cuidado integral. Esses fóruns são espaços fundamentais de reflexão, atualização e construção de políticas públicas que respondam às necessidades das mulheres em cada território”, declarou.
No Brasil, as mulheres representam 65% dos profissionais de saúde e 75% da força de trabalho do SUS, totalizando mais de 2 milhões de trabalhadoras que tornam o sistema mais humano, eficiente e próximo da população. Desta forma, o olhar para elas se apresenta como fundamental para garantir que a saúde seja mais acessível, democrática e atenta à mulher.
O Fórum de Mulheres tem sido conduzido, nacionalmente, pela chefe de gabinete do ministro da Saúde, Eliane Cruz, que presidiu o evento no Distrito Federal. A diretora da Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência, do Ministério das Mulheres, Terlúcia Silva, também participou do momento e mediou os debates.
Na programação, foram apresentadas, pela coordenadora-geral de Atenção à Saúde das Mulheres, Mariana Seabra, as ações e os programas realizados pelo Ministério da Saúde. Entre os temas abordados, foram destaques o enfrentamento à violência contra as mulheres, a ampliação do acesso aos métodos contraceptivos, a melhora do acesso aos serviços, o cuidado integral em diferentes fases da vida e o fortalecimento das políticas públicas de acolhimento e proteção.
Ao final, foram expostos os resultados buscados, que envolvem a transformação das políticas públicas em vida real, por meio de uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Mulheres fortalecida e transversal, com a participação de mais vozes femininas na formulação de políticas, governança, relatórios e recomendações estratégicas.
O Fórum vai percorrer todo o país para tratar de temas centrais como saúde menstrual, menopausa, atenção ao parto, prevenção de cânceres e combate à violência de gênero. Já foram realizadas edições nos seguintes estados: Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Norte e Espírito Santo.
Suellen Siqueira
Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
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