Brasil
Dia de comemoração para os catarinenses: Renan Filho anuncia solução definitiva para o Morro dos Cavalos
Santa Catarina começou nesta quarta-feira (28) a destravar um dos maiores gargalos da logística nacional. Por décadas, o trecho do Morro dos Cavalos, na BR-101, concentrou congestionamentos, acidentes e prejuízos para quem depende da rodovia. Após dez anos sem avanços, o ponto crítico passa a ter uma solução definitiva, com impacto direto na segurança viária e na fluidez do trânsito.
“A obra do Morro dos Cavalos agora tem projeto definido, elaborado pelo DNIT, que é a principal casa da engenharia rodoviária do país, e licença ambiental. A solução será a construção de dois túneis, com total segurança, em entendimento com os povos originários e sem onerar a sociedade catarinense”, detalhou o ministro dos Transportes, Renan Filho.
Para quem vive na estrada diariamente, o anúncio representa o fim de uma rotina marcada por atrasos e prejuízos. Caminhoneiro há sete anos no Morro dos Cavalos, Moisés Silva de Oliveira transporta frutas e verduras para o Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A medida foi anunciada durante a caravana caravana “Na Boleia do Brasil” – edição Sul e prevê a transferência de cerca de 23 quilômetros da BR-101, entre os quilômetros 221 e 244, do contrato da concessionária Arteris Litoral Sul para o contrato da ViaCosteira, administrado pela Motiva. A formalização será feita por meio de termos aditivos e viabiliza uma intervenção estrutural de grande porte, estimada em até R$ 3 bilhões.
Desgaste além do financeiro
Os congestionamentos recorrentes no Morro dos Cavalos vão além das perdas financeiras e afetam diretamente a rotina e a qualidade de vida de quem depende da rodovia. A imprevisibilidade das viagens compromete prazos, amplia o tempo de espera e aumenta o desgaste físico e emocional dos caminhoneiros.
Com 40 anos de estrada, o ex-caminhoneiro Sergio João Vilder conhece de perto essa realidade. Ele chegava a passar pelo trecho até três vezes por dia e afirma que os transtornos acumulados ao longo do tempo geram cansaço, estresse e custos adicionais.
Para ele, a obra representa um passo essencial: “Se não tiver infraestrutura, como nós vamos andar?”.
Projeto avança
Embora o prazo contratual para o início da construção dos túneis seja de até 12 meses, o Ministério dos Transportes trabalha para antecipar o começo das obras ainda este ano. A conclusão está prevista para 2029. O cronograma total é de 48 meses, sendo 36 meses destinados à execução das intervenções no trecho do Morro dos Cavalos. Os ajustes tarifários vinculados ao investimento ocorrerão somente após o início das obras e de forma escalonada.
Para autoridades locais, a solução representa o fim de um problema histórico que afeta diretamente a mobilidade e a segurança viária na região. “Essa obra é muito importante para nossa região. Essa rodovia registra muitas mortes, acidentes e filas quilométricas”, afirmou o vice-prefeito de Palhoça, Rosiney Horácio. Segundo ele, a atuação do Governo do Brasil foi decisiva. “Agradeço ao ministro Renan, que não mediu esforços e veio para fazer a diferença, principalmente aqui em Santa Catarina”, completou.
Corredor Bioceânico do Sul
Na continuidade das ações no Sul do país, o ministro dos Transportes acompanhou o andamento de obras na BR-285, eixo estratégico para a consolidação do Corredor Bioceânico do Sul. No período da tarde, Renan Filho vistoriou a Serra da Rocinha, em Timbé do Sul (SC), e a ponte sobre o Rio das Antas, em São José dos Ausentes (RS), as duas últimas frentes necessárias para a conclusão do corredor.
Na Serra da Rocinha, as obras já alcançam 95% de execução, com entrega prevista para março. No trecho gaúcho, em São José dos Ausentes, as intervenções na BR-285/RS e na ponte sobre o Rio das Antas estão 71% concluídas, com previsão de término em 2027.
“Essa obra é um grande desafio de engenharia por estar em uma região serrana. Falta pouco para ligar São José dos Ausentes à divisa com Santa Catarina, concluindo um trecho fundamental para a consolidação de um corredor bioceânico, com asfalto ligando a divisa do Brasil com Argentina até o oceano Atlântico,” finalizou Renan Filho.
O Corredor Bioceânico do Sul conecta o Rio Grande do Sul e o sudeste de Santa Catarina aos mercados da Argentina, Uruguai e Chile, criando uma rota estratégica de acesso ao Oceano Pacífico. A conclusão do corredor deve ampliar a participação dos dois estados no comércio exterior e fortalecer a competitividade do Brasil nas exportações e importações.
Na Boleia do Brasil
A caravana dá continuidade ao projeto iniciado em novembro de 2025, quando o ministro percorreu, de caminhão, o trajeto entre Brasília e Belém (PA), em preparação para a COP30, vistoriando obras ao longo de cinco dias. A iniciativa já passou pelo Sudeste, cruzando Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Na quinta-feira (29), Renan Filho segue pelo Rio Grande do Sul. O ministro irá vistoriar as melhorias na BR-116, no trecho de Canoas, e percorrer os chamados caminhos assistenciais, iniciativa criada pelo Ministério dos Transportes após as enchentes de 2024 para assegurar, à época, acessos seguros, mobilidade e integração entre os serviços essenciais e a população gaúcha.
A comitiva também irá fiscalizar as obras em andamento na BR-470/RS, no trecho de Bento Gonçalves, rodovia recuperada após a catástrofe climática de 2024.
Assessoria Especial de Comunicação
Ministério dos Transportes
Fonte: Ministério dos Transportes
Brasil
ENTREVISTA – Dariane Beatriz: a “apeixonada” por comida boa
A professora universitária e pesquisadora Dariane Beatriz Schoffen Enke sempre teve uma relação muito próxima com a alimentação saudável. Nascida em Missal, no interior do Paraná, ela plantava e colhia verduras e frutas no sítio dos avós. Ainda no ensino médio, cursou o Técnico em Alimentos.
Até então, a vida de Dariane já orbitava em torno da alimentação, mas foi durante a graduação que ela se aproximou do tema do pescado e começou a pesquisar tecnologias e segurança dos alimentos à base de peixe. Desde então, tornou-se, como ela mesma diz, uma “apeixonada”.
Hoje, Dariane é Professora Assistente Doutora no Campus Experimental de Registro da Universidade Estadual Paulista (UNESP), na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos. Ela também atua como pesquisadora no Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o Ministério da Educação (MEC), que busca o aumento da presença do pescado nas refeições oferecidas aos estudantes da rede pública brasileira.
Convidamos Dariane para falar sobre sua trajetória na área da alimentação e sobre o ACT, que tem como objetivo ampliar a oferta de pescado na alimentação escolar.
MPA – Onde você nasceu e como foi sua infância?
Dariane – Nasci em Missal, no Oeste do Paraná. Minha infância foi deliciosa, vivida no sítio, acompanhando meus avós nas atividades da agricultura e da pecuária, plantando, colhendo e conservando ou transformando os alimentos que produzíamos.
MPA – Como foi sua aproximação com o tema da alimentação e do pescado?
Dariane – Como sempre me identifiquei com os alimentos, cursei o Técnico em Alimentos no então CEFET de Medianeira (PR) e, posteriormente, Engenharia de Alimentos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FURG), na cidade de Rio Grande (RS), onde iniciei minha “vida” no pescado.
MPA – O que você acha sobre o consumo do pescado da pesca artesanal no Brasil?
Dariane -A pesca artesanal é uma atividade de extrema relevância social, cultural e econômica no Brasil e no mundo, tanto em áreas costeiras quanto em águas interiores. Nesse contexto, o consumo do pescado garante a milhões de pessoas segurança alimentar, proteína de alto valor biológico e relações de trabalho que consideram o contexto regional em que a atividade é desenvolvida, valorizando espécies regionais, dinâmicas ambientais e características territoriais específicas.
No entanto, o pescado é um alimento altamente perecível, que exige cuidados e conservação desde a captura ou o abate, passando pelo transporte, processamento e armazenamento, até o preparo final. Por isso, para que o consumo do pescado artesanal seja seguro e de qualidade, é fundamental contar com uma cadeia produtiva estruturada, boas práticas de manipulação, cadeia de frio, inspeção sanitária e tecnologias de processamento que respeitem o produto e garantam segurança ao consumidor.
MPA – O que pode ser feito para aumentar o consumo de pescado no país?
Dariane – Acredito que precisamos atuar em várias frentes ao mesmo tempo.
A primeira é a formação do hábito alimentar. O consumo de pescado precisa ser estimulado desde a infância, porque é nessa fase que muitas preferências alimentares são construídas. Quando a criança tem contato com diferentes espécies, preparações, aromas, texturas e formas de apresentação, tende a desenvolver maior familiaridade e aceitação.
A segunda frente é a valorização da produção nacional. O Brasil possui uma enorme diversidade de pescados, provenientes tanto da pesca artesanal e industrial quanto da aquicultura. Precisamos ampliar a informação, aproximar o consumidor da produção local e mostrar que existem diferentes formas seguras, acessíveis e saudáveis de consumir pescado.
A terceira frente, que considero central, é o investimento em tecnologia e processamento. Faço aqui uma ressalva: o processamento não deve ser confundido com ultraprocessamento. Processar o pescado pode significar limpar, filetar, congelar adequadamente, embalar, porcionar, produzir CMS (carne mecanicamente separada), desenvolver preparações seguras e facilitar o uso em cozinhas domésticas e institucionais. Isso aumenta a vida útil, reduz perdas, melhora a logística, facilita o preparo e permite que o pescado chegue a regiões mais distantes com qualidade.
Também é importante trabalhar o aproveitamento integral e a redução de resíduos. Na área de tecnologia do pescado, existem muitas possibilidades de agregar valor, seja por meio de produtos prontos para preparo, seja com subprodutos, farinhas, caldos, compostagem, biofertilizantes e outras alternativas. Portanto, aumentar o consumo também passa por ciência, inovação, capacitação e organização da cadeia produtiva.
MPA – E nas escolas? Como você vê o consumo entre os estudantes da rede pública?
Dariane – Nas escolas, o pescado tem um potencial enorme, especialmente dentro do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A alimentação escolar não é apenas uma refeição; ela também é um espaço de educação alimentar, formação de hábitos e valorização da cultura alimentar regional.
No entanto, o consumo entre os estudantes ainda é bastante desigual. Em regiões costeiras, ribeirinhas ou com tradição pesqueira, como o Vale do Ribeira, a introdução do pescado pode ocorrer de forma mais natural, pois muitas famílias já têm alguma relação com esse alimento. Ainda assim, isso não significa que sua oferta na escola seja simples. É preciso garantir regularidade, segurança sanitária, preparo adequado e boa aceitação.
Do ponto de vista técnico, também precisamos pensar em preparações apropriadas para crianças: produtos sem espinhas, porções adequadas, textura agradável, sabor equilibrado e formas de preparo que preservem o valor nutricional. O pescado pode estar presente em preparações regionais, ao molho, assado, desfiado, em bolinhos, almôndegas ou hambúrgueres com formulações saudáveis. O importante é que seja seguro, nutritivo, culturalmente adequado e aceito pelos estudantes.
MPA – Agora vamos falar sobre a pesquisa do FNDE, MPA e MEC a respeito da presença do pescado na alimentação escolar. Como você avalia o estudo?
Dariane – Avalio esse estudo como extremamente importante, porque ele oferece um diagnóstico nacional sobre uma questão que muitas vezes é discutida de forma pontual ou regionalizada. Quando conseguimos reunir informações de diferentes estados, municípios e profissionais envolvidos com a alimentação escolar, passamos a enxergar melhor onde estão os desafios e as oportunidades.
Um dado muito expressivo é que mais da metade dos respondentes informou nunca ofertar pescado na alimentação escolar. Isso demonstra que existe um grande espaço para avançar. Ao mesmo tempo, o estudo revela interesse por capacitação, educação alimentar e nutricional, novas preparações e maior articulação com pescadores artesanais. Ou seja, não se trata apenas de falta de interesse, mas de uma cadeia que ainda precisa ser estruturada.
Para mim, o estudo é uma porta de entrada para ações concretas. Ele mostra que a ampliação do pescado na alimentação escolar não depende apenas da vontade individual de nutricionistas ou gestores. Depende de logística, compras públicas, regularidade de fornecimento, organização produtiva, infraestrutura, processamento, capacitação e apoio técnico institucional.
MPA – Como é sua participação nesse projeto?
Dariane – Minha participação ocorre principalmente na interface entre universidade, tecnologia do pescado, segurança dos alimentos e extensão. Tenho trabalhado com a valorização do pescado, especialmente no contexto da pesca e da aquicultura de pequena escala e da alimentação escolar, buscando aproximar o conhecimento técnico-científico das demandas reais dos territórios.
Como engenheira de alimentos, minha contribuição está relacionada à qualidade do pescado, às boas práticas de manipulação, ao processamento, à conservação, ao desenvolvimento de produtos e à adequação das preparações ao público escolar. Quando falamos em inserir pescado na alimentação escolar, precisamos pensar desde a origem do produto até o momento em que ele chega ao prato da criança.
Também atuo na formação e articulação entre diferentes atores. Isso envolve dialogar com pescadores, cooperativas, nutricionistas, gestores, merendeiras, pesquisadores e instituições públicas. A universidade pode contribuir muito nesse processo, tanto por meio da pesquisa quanto da extensão, apoiando a construção de soluções tecnicamente seguras, economicamente viáveis e socialmente adequadas.
MPA – Quais são as principais dificuldades para aumentar o consumo do pescado da pesca artesanal na alimentação escolar?
Dariane – A primeira dificuldade é a organização da cadeia produtiva. Muitas comunidades pesqueiras artesanais produzem pescado em quantidade suficiente e com qualidade, mas nem sempre estão estruturadas para atender às exigências das compras institucionais, especialmente em relação à regularidade, documentação, padronização e logística.
Outro ponto é a infraestrutura. O pescado exige cadeia de frio, transporte adequado, armazenamento correto e manipulação cuidadosa. Sem isso, há risco de perda de qualidade, redução da vida útil e comprometimento da segurança do alimento.
Também existe o desafio do processamento. Muitas escolas não dispõem de estrutura ou equipe suficiente para receber pescado inteiro, limpar, retirar espinhas e preparar o alimento de forma segura. Por isso, produtos minimamente processados, como filés, pescado moído, porções congeladas ou preparações desenvolvidas especificamente para o PNAE, podem facilitar muito essa inserção.
Há ainda o desafio da aceitação. O pescado possui aroma, sabor e textura característicos e, quando a criança não tem o hábito de consumi-lo, a aceitação pode ser mais difícil. Por isso, a educação alimentar e nutricional precisa caminhar junto com a oferta.
Por fim, existe o gargalo institucional: compras públicas, assistência técnica, capacitação de nutricionistas e merendeiras, articulação entre municípios e pescadores, adequação sanitária e políticas de incentivo. Sem apoio contínuo, a inserção do pescado fica dependente de iniciativas isoladas.
MPA – Na sua opinião, o que precisa ser feito para melhorar essa situação?
Dariane – Uma primeira ação seria fortalecer chamadas públicas específicas ou adequadas para a compra de pescado da pesca artesanal e da aquicultura de pequena escala, considerando as particularidades do setor. A pesca artesanal possui sazonalidade, depende das condições ambientais e, muitas vezes, trabalha com diversidade de espécies.
Outra frente importante é a capacitação permanente. Nutricionistas, merendeiras, gestores e pescadores precisam estar envolvidos nesse processo. As merendeiras, por exemplo, desempenham um papel fundamental, pois são elas que transformam o alimento em refeição. Quando recebem um produto adequado, conhecem diferentes formas de preparo e entendem os cuidados necessários, a chance de aceitação aumenta significativamente.
Na área de tecnologia do pescado, precisamos desenvolver produtos e preparações adaptados ao PNAE: alimentos com boa qualidade nutricional, baixo teor de aditivos, sem perfil de ultraprocessados, seguros, práticos e com boa aceitação sensorial. O processamento pode ser um importante aliado para reduzir riscos, facilitar o preparo e ampliar o acesso.
Geilson Silva
Ascom MPA
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