Política Nacional
Debate sobre terras raras aponta necessidade de investimentos
Como o Senado pode garantir que a exploração de terras raras não comprometa a soberania nacional? Como pensar a mineração no Brasil hoje levando em conta o cenário ambiental no planeta? Como serão tratados os impactos ambientais? Existe a possibilidade de fomentar startups para exploração, processamento e uso de terras raras? Esses foram alguns dos muitos questionamentos apresentados pelos cidadãos que acompanharam nesta quarta-feira (17) audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) sobre os desafios e o impacto econômico da mineração e do beneficiamento de terras raras.
As terras raras são um conjunto de 17 minerais usados como matéria-prima para setores considerados críticos, como mobilidade, defesa, eletrônica avançada e transição energética. Esses elementos não são raros na natureza, mas são de difícil separação.
O tema, que tem chamado a atenção de todo o mundo, inclusive com pressão internacional, foi debatido na audiência por representantes de quatro ministérios — Minas e Energia (MME), Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Fazenda (MF) — que confirmaram a necessidade de mais investimentos, assim como na semana passada, quando pesquisadores demandaram mais recursos paras as pesquisas na área.
Potencial
Dados apresentados pelo MME apontam que o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo (23,1%) — atrás somente da China —, mas o percentual brasileiro pode ser ainda muito maior diante do que ainda é desconhecido.
As principais reservas conhecidas hoje no país estão nos estados de Goiás, Minas Gerais, Amazonas e Bahia. O país é o sexto maior detentor de lítio, segundo maior em grafita, o maior em nióbio e o quarto em manganês. Mas a produção no Brasil desses minerais ainda é irrisória quando comparada a outros países.
— O que demonstra o potencial absurdo que o Brasil tem para produzir esses minerais para atender essa demanda futura para a transição energética. […] Nós do Ministério temos desenvolvido políticas públicas para aumentar o mapeamento geológico no país, inclusive para permitir que possamos atrair mais investimentos — disse o diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral do MME, Anderson Barreto Arruda.
O diretor acrescentou ainda que o Brasil detém umas das maiores minerações sustentáveis do mundo, diante de um arcabouço legal rígido, “com instruções de controle bastante firmes e atuantes”, além de ser um dos países com uma das maiores matrizes energéticas limpas do mundo.
— O Brasil tem capacidade de inovação, de profissionais, tanto na parte de energia, de mineração. A gente precisa de incentivos para transformar esse potencial, essa capacidade, em realidade. O nosso mercado consumidor é bastante relevante e, inclusive, demanda, esses minerais para a nossa indústria — disse Arruda.
O país tem, segundo o represente do MME, potencial para se tornar uma grande referência mundial em minerais críticos estratégicos. Ele salienta que não há transição energética sem minerais críticos: a demanda associada à transição energética tende a crescer rapidamente até 2040, na ordem de 2 a 8 vezes em todo o mundo.
— Existe uma oferta limitada, que hoje o mundo não consegue atender. A Ásia é um grande produtor de minerais críticos, tanto na produção como no processamento dos minerais deles. O resto do mundo ocidental busca alternativas para esse suprimento e o Brasil pode, sim, ser esse player mundial para atender esse mercado que buscar diversificação de fornecimento — completou Arruda.
Políticas
Coordenadora de Inovação em Tecnologias Setoriais da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, Tássia Arraes informou que o tema dos minerais estratégicos está diretamente ou indiretamente citado em diversas das políticas públicas nacionais.
Ela citou o novo PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], na transição e segurança energética; o Plano de Transformação Ecológica [MF], com adensamento tecnológico e economia circular; na Nova Indústria Brasil [MDIC] e no Plano Nacional de Segurança Energética [MME], na descarbonização, transição e segurança energética, além do Plano Clima [Ministério do Meio Ambiente], no que concerne à descarbonização e em pesquisa e desenvolvimento.
A coordenadora destacou a necessidade de se ampliar investimentos públicos e privados em PDI, da necessidade de capacitação e formação de recursos humanos especializados, de fortalecer as infraestruturas de pesquisa das instituições de ciência e tecnologia [ICTs] e universidades, e de realizar estudos prospectivos tecnológicos.
Agregar valor
Segundo o coordenador-geral das Indústrias de Metalurgia e de Base Florestal do MDIC, Tólio Edeo Ribeiro, o desafio central é realmente transformar o potencial geológico com agregação de valor, com adensamento de cadeias produtivas.
— A gente precisa saber transformar a nossa potencialidade dessas reservas em geração de investimentos, de empregos e de catch up [alcance] tecnológico para o Brasil. […] Nós não queremos ser só produtor e exportadore de minerais críticos estratégicos, nós queremos agregar valor, gerando emprego no país.
O coordenador-geral de Energia e Mineração da Secretaria de Reformas Econômicas do MF, Carlos Omildo dos Santos Colombo, afirmou que o tema das terras raras e os minerais críticos tem sido bastante trabalhado nos últimos dias em função de uma pressão internacional, mas a discussão é bastante antiga e tem uma prioridade grande no Plano de Transformação Ecológica.
— Tivemos um destaque no passado com relação a produção e hoje estamos com o desafio de voltar a essa produção — disse Colombo.
Ele destacou que a reforma tributária em implantação traz princípios que são fundamentais para os investimentos na mineração e que devem contribuir para o setor mineral a partir de um ambiente mais favorável de negócios, da desoneração de investimentos em bens de capital e da desoneração das exportações.
Articulação
Uma das autoras dos requerimentos para a audiência, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) destacou o envolvimento dos quatro ministérios no debate das terras raras, o que, segundo ela, indica uma necessidade imperiosa de articulação.
— Vejo com muitos bons olhos a tarefa estratégica de agregar valores no bom direcionamento e aproveitamento desse potencial, ainda parcialmente explorado. […] E não poderia deixar de concordar com a disputa geopolítica: a China fez o que tinha de ser feito. Os Estados Unidos impuseram um tarifaço para o Brasil, que teve condicionantes políticos, ideológicos, vinculados à queda da nossa soberania, com intervenções evidentes do governo americano sobre as escolhas que o Brasil fez democraticamente.
Para o senador Pedro Chaves (MDB-GO), “essa riqueza dos minerais tem ser traduzida em riqueza e tecnologia para o povo brasileiro”.
— Para que a gente não deixe a nossa riqueza sair do país sem trazer os frutos. O trabalho feito nesse debate pode se traduzir em projetos de lei. Que a arrecadação possa melhorar e também para que seja motivo de transformação para o nosso povo, gerando emprego, gerando renda e riqueza.
Presidente da CCT, o senador Flávio Arns (PSB-PR) disse ser importante vincular terras raras e minerais estratégicos com educação, tema que já deve ser apresentado e discutido por crianças, adolescentes e universitários, segundo ele.
— O importante, no fundo, é o domínio do conhecimento. Se nós transformarmos esse conhecimento em tecnologia e inovação, nós nos tornamos protagonistas. E nós temos toda a riqueza no Brasil, colocada à disposição. Temos capacidade, competência, as universidades, os institutos de pesquisa que são muito bons e que precisam ser apoiados para que desenvolvam aquilo que se propõe do ponto de vista de minas e energia, da indústria e do meio ambiente também — salientou Arns.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Política Nacional
Ativistas criticam deportações em massa dos EUA e pedem medidas de acolhimento de migrantes no Brasil
As deportações em massa dos Estados Unidos e as falhas no acolhimento de migrantes no Brasil dominaram o debate entre ativistas de causas humanitárias em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
A audiência realizada nesta quarta-feira (8) resultou da mobilização internacional de parlamentares e sociedade civil que participaram, em março, da Jornada Continental pelo Direito à Migração e Defesa da Soberania.
Integrante do comitê da jornada em São Paulo, Bárbara Corrales lembrou que o movimento se intensificou a partir da truculência do ICE, o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos. “Na semana passada, os agentes do ICE prenderam 10 mil pessoas em cinco dias. Isso não deixa dúvida do que o imperialismo quer: a guerra pode ser com bombas, mas a guerra também pode ser com opressão social.”
Bárbara Corrales afirmou que, mesmo diante de intensa manifestação popular nos Estados Unidos (com o lema “No kings, no ICE, no war”), o governo Donald Trump manteve as deportações em massa e reforçou o orçamento do ICE com 70 bilhões de dólares.
De janeiro de 2025 até junho deste ano, foram cerca de 600 mil deportados, dos quais 4,6 mil brasileiros. Também houve 60 mil detidos de várias nacionalidades, a maioria (70%) sem antecedentes criminais.

Brasileiros nos EUA
Falando diretamente de Boston, em Massachusetts, a organizadora do Grupo Mulher Brasileira, Heloísa Galvão, deu detalhes do cotidiano de tentativa de ajuda aos migrantes brasileiros. “A situação aqui é uma catástrofe. É um governo que coloca em risco a vida das pessoas, coloca uns contra os outros e alimenta o ódio. O que a gente vê na nossa comunidade é um medo, é um pavor. Todos os dias a gente recebe ligação de brasileiros presos.”
Os ativistas calculam que há 17 mil brasileiros enfrentando detenções prolongadas e dificuldades de defesa nos Estados Unidos.
A diplomata Carlota Ramos, que trabalha na Divisão de Assuntos Humanitários do Ministério de Relações Exteriores, afirmou que o Brasil enfrenta a situação com base nos princípios de não criminalização da migração, proteção dos direitos de migrantes e refugiados e integração socioeconômica.
“Vivemos [no mundo] um momento de recrudescimento de discursos anti-imigração, endurecimento de políticas migratórias e crescente erosão de mecanismos internacionais de proteção. Nesse contexto, o Brasil tem atuado para ser uma voz dissonante, que defende soluções baseadas em direitos humanos, cooperação internacional e não discriminação”, afirmou.
Carlota Ramos citou ações em curso, como a Operação Acolhida, voltada aos venezuelanos, e o primeiro Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (I PlaNaMigra), assinado em junho deste ano.
Ações em andamento
Um dos organizadores da audiência, o deputado Rui Falcão (PT-SP) pediu o fortalecimento do Programa Aqui é Brasil, lançado no ano passado para a reintegração de brasileiros repatriados à força.
“Apesar de toda a boa vontade, tem baixo orçamento. Mais de 5 mil famílias foram deportadas com violência e precisam de acolhimento, direito à moradia, quem sabe acesso a benefícios sociais e também possibilidade de reinserção no mercado de trabalho. Nós não queremos muros, queremos horizontes”, disse o deputado.
Rui Falcão ainda defendeu a formalização de uma delegação multipartidária de parlamentares para verificar a situação dos brasileiros presos nos Estados Unidos.
Migrantes no Brasil
Durante a audiência, migrantes radicados no Brasil também relataram os desafios por aqui, como racismo, xenofobia, trabalho precário, separação da família e medo de deportação e de violência institucional.
Integrante do Conselho Municipal do Migrante de São Paulo, a nigeriana Constance Salawe afirmou que a legislação migratória brasileira é uma das mais avançadas do mundo, mas precisa ser plenamente implementada.
“Nós, imigrantes, não somos um problema a ser resolvido. Somos parte da solução: trabalhamos, empreendemos, produzimos conhecimento, cuidamos das pessoas, enriquecemos a cultura brasileira e ajudamos a construir um Brasil mais diverso, mais forte e mais humano”, declarou.
Segundo Constance Salawe, “migrar não é apenas mudar de território, é reconstruir uma vida”.

Outro organizador do debate, o deputado Reimont (PT-RJ) afirmou que “fronteiras administrativas não podem impedir o livre deslocamento das pessoas”.
Já a deputada Erika Kokay (PT-DF) sugeriu a criação de um observatório para monitorar a situação dos migrantes e uma moção de repúdio da comissão à política anti-imigratória de Trump.
Também na audiência, a palestina Muna Muhammad Obdeh citou a Declaração Universal dos Direitos Humanos como fundamento para a reconstrução da sua vida no Brasil. “Eu, como palestina, resido aqui no Brasil desde 1992, faço pesquisa, estudo e oriento estudantes nessa temática, que transcorre a partir de direitos humanos e de dignidade humana”, disse.
Muna Muhammad Obdeh é professora de saúde coletiva na Universidade de Brasília (UnB) e representou o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) no debate.
Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Pierre Triboli
Fonte: Câmara dos Deputados
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