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Trigo: menor produção no Brasil e problemas climáticos no exterior sustentam preços e elevam volatilidade

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O mercado de trigo atravessa um momento de maior volatilidade e sustentação de preços, impulsionado por fatores internos e externos. No Brasil, a perspectiva de queda na produção em 2026, que pode atingir o menor nível dos últimos seis anos, contrasta com um cenário internacional ainda relativamente equilibrado, mas pressionado por questões climáticas e geopolíticas.

A combinação desses elementos tem influenciado diretamente o comportamento das cotações, tanto no mercado doméstico quanto nas bolsas internacionais.

Produção de trigo no Brasil deve cair ao menor nível em seis anos

A estimativa para a safra brasileira de trigo em 2026 aponta para uma produção de aproximadamente 6,6 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 16% em relação ao ciclo anterior, com redução superior a 1,2 milhão de toneladas.

A área plantada deve somar 2,22 milhões de hectares, retração de 9,2% frente a 2025, enquanto a produtividade média é projetada em 2.979 kg por hectare, recuo de 7,5%.

Segundo análises do Cepea, esse cenário reflete a baixa rentabilidade das últimas safras, aliada às incertezas climáticas e aos riscos de comercialização. Outro fator relevante é que, desde o segundo semestre de 2025, os preços praticados no Sul do país vêm sendo negociados abaixo dos níveis mínimos estabelecidos pela política de garantia de preços, o que desestimula o produtor.

Menor oferta interna sustenta preços no mercado brasileiro

Com a perspectiva de redução na produção, o mercado doméstico tende a apresentar fundamentos mais firmes. A menor oferta, especialmente em estados produtores como o Rio Grande do Sul, contribui para sustentar os preços internos do cereal.

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Esse movimento ocorre em um contexto de decisões mais cautelosas por parte dos produtores, que vêm reduzindo investimentos diante da menor rentabilidade e das incertezas para a nova safra.

Mercado internacional apresenta estabilidade com leve alta

No cenário externo, os contratos futuros de trigo na Bolsa de Chicago (CBOT) iniciaram sessões recentes com leve valorização. O comportamento mais contido reflete uma oferta global ainda relativamente confortável, o que limita movimentos mais expressivos de alta.

Medidas envolvendo exportações de grandes produtores, como a Índia, ajudam a reduzir riscos de escassez no mercado internacional. Ainda assim, o mercado segue atento ao desenvolvimento das safras e ao fluxo global de exportações, fatores que continuam gerando volatilidade.

Clima adverso nos EUA impulsiona alta nas cotações

Os preços internacionais do trigo ganharam força diante da deterioração das lavouras de inverno nos Estados Unidos. Dados do Departamento de Agricultura dos EUA indicam que apenas 30% das áreas estão classificadas como boas ou excelentes, abaixo das expectativas do mercado.

No Kansas, um dos principais estados produtores, a situação é ainda mais crítica, com apenas 24% das lavouras em boas condições.

Além da estiagem nas Planícies, uma onda de frio recente aumentou as preocupações com possíveis danos às lavouras, reforçando o viés de alta nas cotações.

Tensões geopolíticas e custos elevam incertezas globais

O cenário internacional também tem sido influenciado por fatores geopolíticos. Tensões envolvendo a região do Estreito de Ormuz, além de eventos como a apreensão de um navio iraniano pelos Estados Unidos, contribuíram para a elevação dos preços do petróleo, impactando indiretamente as commodities agrícolas.

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Outros elementos, como a redução da área plantada na Austrália — influenciada pelo aumento no custo de insumos como a ureia — também adicionam incertezas à oferta global.

Por outro lado, o avanço das exportações da Rússia atua como fator de equilíbrio, ajudando a conter movimentos mais acentuados de alta.

Exportações dos EUA avançam e reforçam demanda

No campo da demanda, as exportações norte-americanas de trigo apresentaram crescimento recente. As inspeções semanais somaram 518.141 toneladas, acima do volume registrado na semana anterior e em linha com o mesmo período do ano passado.

No acumulado do ano-safra, iniciado em junho de 2025, os embarques já superam os registrados na temporada anterior, indicando uma demanda consistente no mercado internacional.

Trigo se mantém entre os ativos mais voláteis do agro

Diante da combinação de menor oferta no Brasil, clima adverso nos Estados Unidos e incertezas geopolíticas, o trigo se consolida como um dos produtos mais voláteis do mercado agrícola no momento.

Enquanto o cenário global apresenta certo equilíbrio, os fundamentos internos no Brasil são mais restritivos, o que tende a manter os preços sustentados no mercado doméstico.

O atual contexto reforça a necessidade de atenção por parte dos agentes do setor, já que a evolução das condições climáticas, das políticas comerciais e da produção global seguirá determinando o comportamento dos preços ao longo da temporada.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

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Safra recorde já não basta para garantir rentabilidade ao produtor

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A perspectiva de uma nova safra recorde encontra o produtor brasileiro diante de um desafio que cresce na mesma proporção da produção: financiar uma atividade mais tecnológica, mecanizada e intensiva em capital, num ambiente de juros elevados, margens menores e bancos mais seletivos. O avanço do crédito privado amplia as alternativas disponíveis, mas também exige profissionalização da gestão e uma análise mais rigorosa sobre o retorno proporcionado pelo patrimônio investido.

Dados do Banco Central (BC), compilados por entidades do setor, mostram que 23,5% da carteira ativa de crédito rural apresentava algum nível de problema em julho de 2026. Eram R$ 207,5 bilhões em operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas. O indicador não representa apenas parcelas vencidas, mas revela o aumento do estresse financeiro acumulado depois de safras afetadas pelo clima, custos elevados e preços menos favoráveis.

Ao mesmo tempo, o financiamento bancário tradicional perdeu força. Em 12 meses, o volume de crédito rural concedido sem considerar instrumentos do mercado de capitais recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. A área atendida pelas linhas convencionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares.

Esse espaço vem sendo ocupado gradualmente por cooperativas, tradings, fornecedores de insumos, fundos de investimento e emissões no mercado de capitais. O estoque dos instrumentos privados de financiamento do agronegócio alcançou R$ 1,34 trilhão em julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Somente as Cédulas de Produto Rural (CPRs) somavam R$ 580,8 bilhões, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos.

Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a diversificação das fontes de recursos é necessária, mas não pode ser confundida com crédito fácil ou capacidade ilimitada de endividamento.

“O crédito privado será cada vez mais importante para complementar o Plano Safra e o financiamento bancário. O produtor, porém, precisa avaliar o custo efetivo, o prazo, as garantias exigidas e a compatibilidade das parcelas com o fluxo de caixa da propriedade. Trocar uma dívida por outra mais cara, sem corrigir a origem do desequilíbrio, apenas transfere o problema para a safra seguinte”, afirma.

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A necessidade de capital aumentou com a transformação da agropecuária brasileira. Produzir em escala passou a exigir máquinas de maior capacidade, agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, conectividade, sistemas de gestão, insumos tecnológicos e equipes especializadas. A valorização das terras também elevou o volume de patrimônio imobilizado nas operações.

Essa evolução permitiu ganhos de produtividade e consolidou o Brasil entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, fibras e energia. Mas também tornou as propriedades mais sensíveis ao custo do dinheiro. Quando os juros aumentam e as margens recuam, uma atividade pode apresentar lucro contábil e, ainda assim, não remunerar adequadamente todo o capital empregado.

É nesse ponto que ganha importância o conceito de Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA. O indicador calcula o resultado operacional do negócio depois de descontado o custo de todo o capital utilizado, inclusive recursos próprios, terras quitadas, máquinas e demais ativos.

Uma propriedade pode encerrar o ciclo com resultado positivo no balanço, mas destruir valor se o retorno obtido ficar abaixo do que aquele patrimônio poderia render em uma alternativa de menor risco. A terra própria, por exemplo, não deixa de ter custo econômico porque está quitada. Ela representa capital que poderia ser arrendado, vendido ou aplicado em outro investimento.

“O produtor sempre acompanhou produtividade, custo por hectare e preço de venda. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para medir a saúde econômica do negócio. Também é necessário saber se o resultado remunera a terra, as máquinas, o capital de giro e o risco assumido durante a safra”, diz Rezende.

A aplicação dessa análise não significa abandonar investimentos ou reduzir a produção. O objetivo é identificar quais atividades, áreas e estruturas realmente geram retorno. A avaliação pode mostrar que determinado talhão produz bem, mas possui custo elevado; que uma máquina permanece ociosa; ou que o arrendamento oferece resultado melhor do que a compra de terras financiada.

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O mesmo raciocínio vale para a contratação de crédito. Recursos obtidos a juros superiores ao retorno esperado pela atividade diminuem o valor econômico da propriedade, mesmo quando ajudam a ampliar o faturamento. Por isso, crescimento de receita, aumento de área e recorde de produção não significam necessariamente fortalecimento financeiro.

A busca por recursos privados também coloca a governança no centro das negociações. Instituições financeiras e investidores analisam demonstrações contábeis, histórico de produção, previsibilidade de caixa, endividamento, garantias, regularidade ambiental e fundiária, contratos e capacidade de gestão. Quanto maior a qualidade dessas informações, maior tende a ser a possibilidade de acessar diferentes fontes e negociar condições melhores.

“Governança deixou de ser uma preocupação exclusiva das grandes empresas. O produtor que conhece seus números, separa as contas da família e da propriedade, mantém documentos regulares e apresenta informações confiáveis reduz a percepção de risco. Isso melhora sua posição diante dos financiadores e permite comparar propostas sem decidir apenas pela disponibilidade imediata do dinheiro”, acrescenta Rezende.

O modelo de financiamento do agronegócio tende a permanecer híbrido. Crédito rural, recursos obrigatórios, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e mercado de capitais continuarão convivendo, cada um com custos, prazos e riscos diferentes. O desafio será combinar essas fontes sem comprometer parcelas excessivas da produção futura ou oferecer garantias incompatíveis com o valor da operação.

A safra recorde continua sendo uma demonstração da capacidade produtiva brasileira. Para que esse desempenho se transforme em renda, entretanto, o produtor precisará acompanhar não apenas quantas toneladas colhe, mas quanto valor permanece depois de remunerados todos os recursos utilizados. Em uma agricultura intensiva em capital, produzir mais é importante; produzir com retorno econômico tornou-se decisivo.

Fonte: Pensar Agro

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