Agro
Safra 2025/26 avança com bom ritmo de plantio e exportações recordes de soja e milho impulsionam o agronegócio brasileiro
O plantio da safra de soja 2025/26 apresentou bom desempenho ao longo de outubro. Até a última semana do mês, 47,1% da área total havia sido semeada, número próximo da média histórica, que é de 54,7% nos últimos cinco anos. Os estados do Mato Grosso (80,1%) e Paraná (71%) lideram o avanço dos trabalhos no campo.
Enquanto o novo ciclo produtivo ganha ritmo, a safra 2024/25 continua sendo escoada em volumes recordes. Até setembro, o Brasil exportou 101,5 milhões de toneladas de soja, consolidando o país como o maior fornecedor mundial do grão. O line-up de novembro — lista de embarques previstos — indica 3,8 milhões de toneladas, com expectativa de revisão positiva nas próximas semanas.
A China permanece como principal destino, respondendo por 94% das exportações brasileiras em outubro, o equivalente a 6 milhões de toneladas. A participação chinesa segue em patamar historicamente elevado, acima da média de 79,9%, superando inclusive o índice observado em 2019 (78%).
Milho: boas perspectivas e crescimento do consumo interno
O plantio da primeira safra de milho 2025/26 também segue em ritmo favorável, com 42,8% da área semeada até o fim de outubro. De acordo com a Conab, a produção deve alcançar 138,6 milhões de toneladas, acompanhada por um aumento do consumo interno, que deve subir de 90,6 milhões de toneladas em 2025 para 94,6 milhões em 2026.
Até outubro, o país já havia exportado 29,6 milhões de toneladas de milho. Para novembro, a expectativa é de um novo embarque de 5,6 milhões de toneladas, volume que pode ser ajustado ao longo do mês, conforme dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC).
Principais destinos das exportações brasileiras de milho
Os destinos tradicionais mantêm participação expressiva nas compras do milho brasileiro. Até setembro, os destaques foram:
- Irã – 6,5 milhões de toneladas (21%)
- Egito – 5,3 milhões de toneladas (18%)
- Vietnã – 2,7 milhões de toneladas (9%)
- China – 1,8 milhão de toneladas (6%)
- Arábia Saudita – 1,6 milhão de toneladas (5%)
Mercado internacional: indefinições nos EUA e acordo comercial com a China
O relatório WASDE de outubro — um dos mais aguardados pelo mercado global — não foi publicado devido à paralisação do financiamento do governo dos Estados Unidos. A próxima edição está prevista para 14 de novembro.
No cenário comercial, os EUA e a China avançaram em um novo acordo que inclui a soja entre os produtos negociados. O compromisso prevê a compra de 12 milhões de toneladas até o fim deste ano, além de 25 milhões de toneladas anuais pelos próximos três anos.
Apesar da redução da tarifa de importação chinesa de 25% para 13%, a soja norte-americana ainda perde competitividade frente à brasileira. O anúncio, contudo, impactou imediatamente os prêmios de exportação no Brasil.
Panorama das exportações agrícolas
Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil manteve desempenho superior nas exportações de soja, milho, trigo e farelo de soja em relação a 2024. A ANEC aponta que o line-up para novembro prevê embarques médios de 5,5 milhões de toneladas de milho, com possibilidade de crescimento conforme o ritmo dos carregamentos portuários.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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