Política Nacional
Profissionais da cultura apoiam estatuto para enfrentar precarização no setor
A precarização do trabalho e as jornadas excessivas estão entre os principais desafios enfrentados pelos trabalhadores da cultura. A avaliação foi feita por representantes e especialistas do setor durante audiência pública da Comissão de Educação e Cultura (CE) nesta terça-feira (28).
Solicitada pelo senador Humberto Costa (PT-PE), a audiência discutiu a criação do Estatuto do Trabalhador e da Trabalhadora da Cultura, das Artes e Eventos. Com foco na regulamentação e na proteção dos direitos dos profissionais da área, o estatuto busca definir regras específicas para o setor, que tem características próprias, como a intermitência (trabalho descontínuo) e a existência de múltiplos vínculos.
Humberto Costa, que presidiu a sessão, destacou que, embora a cultura brasileira seja uma das maiores riquezas do país, os profissionais ainda convivem com instabilidade, dificuldades de acesso à Previdência e insegurança. O senador explicou que o anteprojeto do estatuto já existe, fruto de um diálogo institucional e técnico, e que o documento final deve ser um marco legal do setor.
— Um instrumento capaz de estabelecer princípios claros, organizar as formas de contratação, assegurar mecanismos de proteção social e sobretudo reconhecer esses trabalhadores como sujeitos de direitos, com dignidade e previsibilidade em suas trajetórias profissionais.
A minuta do texto foi analisada no Seminário Internacional para a Regulamentação e Proteção dos Trabalhadores da Cultura, ocorrido no Congresso nos dias 13 e 14 de abril.
Vínculos informais
Representante da Articulação Nacional de Trabalhadores em Eventos (Ante), Miguel Ribeiro relatou que o movimento pela criação do estatuto surgiu durante a pandemia, quando o abandono dos profissionais do setor se tornou evidente, pois muitos deles ficaram sem qualquer alternativa de renda.
Ribeiro criticou a precarização das relações de trabalho, frequentemente marcadas por vínculos informais, e chamou a atenção para a falta de responsabilização em situações de risco. Ele citou o caso de um profissional de cenografia que morreu durante a montagem de um show no Rio de Janeiro essa semana.
Para Thiago Rocha Leandro, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura (MinC), o debate envolve interesses distintos dentro de um setor estratégico para a economia. De um lado, segundo ele, estão os empreendedores, responsáveis por gerar emprego, renda e participação relevante no PIB; de outro, os trabalhadores, que precisam de maior proteção.
O secretário destacou o impacto da Lei Rouanet, afirmando que, apesar de representar uma renúncia fiscal inferior à concedida a outros setores, cada real investido gera retorno significativo para a economia:
— O total da Lei Rouanet equivale a 0,5% do total de renúncias [fiscais] que o país tem. É menos do que a renúncia para o agrotóxico. É quase igual à renúncia para embarcação e aviação. E veja o impacto que a Rouanet tem de benefício para a geração de empregos… Pesquisa do Banco Itaú mostra que cada R$ 1 investido na cultura gera um impacto econômico de R$ 7,50.
De acordo com Carlos Balduíno, diretor de Diálogos Sociais da Secretaria Nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas da Presidência da República, a precarização das relações de trabalho no setor cultural tem sido agravada pelas novas tecnologias, que dificultam a definição de direitos e vínculos trabalhistas. Ele defendeu a necessidade de trazer esses profissionais para a formalidade, com acesso a direitos sociais, e afirmou que a consolidação de um estatuto pode estabelecer critérios mais claros de remuneração e contratação.
Balduíno também destacou que mudanças recentes na jornada de trabalho, como o fim do modelo 6×1, podem ampliar o tempo disponível da população para o consumo de cultura:
— Algo fundamental é ampliar os consumidores de cultura no país, para gerar maior diversidade e mais emprego.
O diretor de Políticas para Trabalhadores da Cultura e da Economia Criativa do Ministério da Cultura, Deryk Vieira Santana, defendeu a ampliação do olhar sobre quem são os trabalhadores da cultura e as condições em que atuam, incluindo profissionais de atividades sazonais, como o Carnaval e as festas juninas. Segundo ele, é preciso ir além da lógica dos editais e reconhecer a centralidade desses trabalhadores nas políticas públicas, especialmente após a pandemia, que evidenciou a importância da cultura no cotidiano das pessoas.
Deryk destacou a necessidade de uma legislação que considere características como intermitência e sazonalidade, além de garantir direitos em situações como gravidez, acidentes e aposentadoria. Ele criticou práticas como a “pejotização” excessiva, atrasos ou retenção de cachês. Valores como o couvert artístico, por exemplo, devem ser integralmente repassados aos artistas, defendeu. E alertou para jornadas exaustivas e casos recentes de trabalho análogo à escravidão em grandes eventos.
Para o diretor do MinC, é urgente discutir novas fontes de financiamento para a proteção social desses profissionais, incluindo mecanismos ligados à taxação de plataformas de streaming e empresas de inteligência artificial.
A avaliação foi reforçada por Sonia Teresa Santana, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual (Sindcine). Ela apontou lacunas na Lei 6.533, de 1978, especialmente em aspectos relacionados à segurança do trabalho e à jornada, destacando que as longas horas — muitas vezes chegando a 14 horas diárias — têm levado a situações de exaustão, acidentes no trajeto de volta para casa e casos de burnout (esgotamento físico provocado por trabalho desgastante).
Segundo Sonia, é fundamental garantir condições que permitam qualidade de vida após o trabalho. Ela também defendeu uma atuação conjunta entre o Ministério da Cultura e o Ministério do Trabalho para enfrentar esses desafios e reforçou a importância de mecanismos efetivos de segurança, com a presença de técnicos independentes, capazes de atuar sem subordinação direta aos contratantes, evitando falhas e assegurando que haja recursos suficientes destinados à proteção dos trabalhadores.
Problemas estruturais
De acordo com o pesquisador Frederico Augusto Barbosa da Silva, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o estatuto busca enfrentar problemas estruturais do setor, como a precarização, a intermitência sem proteção adequada, os múltiplos vínculos sem cobertura previdenciária e a fragilidade contratual.
Entre as mudanças previstas, estão o reconhecimento de diferentes formas de trabalho e regras mais claras sobre contratos, pagamento e jornada, além da valorização do tempo dedicado a ensaios, montagem e deslocamento.
A proposta de estatuto também inclui inovações como proteção social compatível com renda variável, negociação coletiva como eixo regulador, regulação do uso de inteligência artificial e criação de instrumentos de segurança de renda, como complementação salarial e seguro. A implementação, segundo o pesquisador, depende de desafios como a definição de fontes de financiamento, integração entre sistemas e avaliação de viabilidade fiscal e orçamentária.
Para superar esses desafios, Frederico Silva defendeu a atuação conjunta de diferentes áreas do governo. Na avaliação dele, a proposta exige articulação entre os Ministérios da Cultura, do Trabalho e da Previdência, além do fortalecimento das capacidades estatais e da representação sindical para garantir sua efetividade.
— A gente está prevendo vários mecanismos de garantia fundamentalmente de complementação de renda e seguro-desemprego. Se você trabalha numa área que se encaixa no rol de atividades do estatuto, o sistema vai ter que funcionar para fazer a proteção sobre esses elementos… Mas para isso funcionar, as instituições terão que estar bem azeitadas.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Política Nacional
Sessão especial destaca importância da imprensa na promoção do turismo
Os 69 anos da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet) foram celebrados em sessão especial do Senado nesta sexta-feira (14). No evento, os oradores ressaltaram a importância da imprensa especializada para a economia, a cultura e o desenvolvimento dos destinos brasileiros.
A sessão atendeu a requerimento (RQS 407/2026) do senador Eduardo Gomes (PL-TO). A reunião foi conduzida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e contou com a presença de dirigentes da entidade, jornalistas e autoridades do setor.
Na abertura dos trabalhos, Damares ressaltou o papel histórico da associação no fortalecimento do turismo e no incentivo ao crescimento econômico do país. A senadora enfatizou que o trabalho da imprensa especializada ajuda a divulgar o potencial do Brasil tanto internamente quanto no exterior.
— Esta sessão especial é o reconhecimento público de uma trajetória dedicada à informação de qualidade, à valorização do turismo nacional e à defesa do jornalismo especializado como instrumento de desenvolvimento econômico, cultural e social no Brasil — destacou Damares.
Inovação digital
O presidente nacional da Abrajet, Luiz de Sousa Pires, retraçou a história da entidade, criada em 29 de janeiro de 1957 no Rio de Janeiro. Atualmente, a associação reúne mais de 200 profissionais em 20 estados e no Distrito Federal, alcançando mais de 140 veículos de comunicação, entre jornais, revistas, rádios, emissoras de TV e portais digitais.
Pires apresentou o workshop “A Nova Rota do Jornalismo de Turismo”, iniciativa promovida pela associação para capacitar jornalistas regionais no uso de inteligência artificial, otimização de buscas e estratégias de comunicação digital. Ele também destacou o início dos preparativos para o aniversário de 70 anos da entidade, em 2027.
— O jornalista sempre foi reconhecido como criador de conteúdo, influenciador e referência na divulgação da notícia com credibilidade. Mas hoje os desafios para ocuparmos o nosso devido espaço são grandes — ressaltou.
Gastronomia paulistana
Representando a prefeitura de São Paulo, o secretário municipal de Turismo, Gustavo Lopes de Souza, apontou que a capital paulista recebeu 47 milhões de visitantes no último ano, dos quais, segundo ele, mais de 3 milhões eram estrangeiros. Lopes ressaltou a força da gastronomia local e agradeceu o apoio do Senado na aprovação de operações de crédito para investimentos públicos na cidade, como a ampliação da frota de ônibus elétricos.
— É muito importante a gente ter o apoio da mídia, ter o apoio de todos os jornalistas que cobrem o setor, para que a gente consiga vender o que existe de melhor dentro das nossas cidades e do nosso Brasil.
Defesa do turismo
O ex-presidente da Abrajet e membro do Conselho Nacional do Turismo, Antonio Claudio Magnavita Castro, cobrou vigilância contra o turismo sexual e a exploração da imagem feminina na promoção turística, e, citando o Airbnb, criticou a atuação de plataformas de hospedagem temporária.
— Esta solenidade homenageia uma entidade que tem uma capilaridade nacional. É muito importante que a gente não deixe passar em branco este momento, porque a força da Abrajet está, sobretudo, nas campanhas que abraça na defesa do turismo nacional — pontuou.
A mesa da sessão especial foi composta também pelo presidente da Abrajet em Minas Gerais, Antônio Claret Guerra, e pela presidente da Abrajet em São Paulo, Miriam Petrone.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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