Agro
Mercado do feijão enfrenta baixa liquidez e negócios seguem travados no Brasil
Demanda enfraquecida reduz liquidez no mercado do feijão carioca
O mercado do feijão carioca manteve ritmo lento de negociações ao longo da semana e acumula quase um mês de liquidez bastante reduzida. De acordo com o analista da Safras & Mercado, Evandro Oliveira, os negócios têm ocorrido de forma pontual, com volumes pequenos e compradores focados apenas na reposição imediata de estoques.
Segundo o analista, em alguns pregões o volume negociado chegou a apenas 2 mil sacas, patamar considerado muito baixo para os padrões do mercado.
A demanda tem se concentrado principalmente em feijões comerciais, que passaram a liderar o giro nas negociações.
Feijões comerciais ganham espaço nas negociações
Lotes com padrão 7,5 a 8 foram negociados na Zona Cerealista entre R$ 275 e R$ 300 por saca. Esse movimento reflete a estratégia das empacotadoras de priorizar matéria-prima mais barata para manter competitividade no varejo.
Por outro lado, os feijões de melhor qualidade enfrentam forte restrição de liquidez. Lotes Extra 8,5 a 9 registraram negociações pontuais entre R$ 345 e R$ 360 por saca CIF São Paulo, enquanto o teto para feijões de qualidade superior permaneceu próximo de R$ 370 por saca, mas com raríssimos negócios.
Segundo Oliveira, a escassez de grãos perfeitos continua evidente no mercado, fator que ajuda a sustentar os preços nominais mesmo diante da demanda mais fraca.
Lotes com defeitos aparecem com descontos
Parte das negociações envolveu lotes com problemas de qualidade, como bandinha, manchas, brotação e umidade, comercializados com descontos para estimular a venda e liberar caixa.
Ao mesmo tempo, os lotes mais baratos que anteriormente apareciam entre R$ 270 e R$ 290 por saca CIF São Paulo praticamente desapareceram do mercado após terem sido absorvidos em negociações anteriores.
Redução de área no Paraná pode limitar oferta futura
No campo, um fator estrutural começa a ganhar importância para o mercado. A segunda safra de feijão do Paraná foi revisada para 264,6 mil hectares, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), indicando queda de cerca de 24% em relação ao ciclo anterior.
De acordo com o analista, essa redução de área tende a limitar a oferta futura do grão.
No cenário atual, o mercado segue sustentado mais pela oferta controlada e pela escassez de qualidade do que por uma demanda aquecida, mantendo os preços relativamente firmes, mas com liquidez bastante restrita.
Qualidade passa a determinar preços do feijão preto
O mercado do feijão preto também registrou uma semana de negociações muito limitadas. Assim como no carioca, o setor acumula cerca de três semanas consecutivas de liquidez mínima, com negócios restritos a reposições pontuais.
Nas regiões produtoras do Sul do país, as indicações passaram a mostrar leve pressão de baixa. No Sul do Paraná, as referências perderam o patamar de R$ 190 por saca, com indicações entre R$ 186 e R$ 188 por saca FOB, e negócios pontuais ao redor de R$ 185 por saca.
Segundo Oliveira, os preços refletem a dificuldade de escoamento diante do consumo mais fraco.
Interior de São Paulo mantém preços mais firmes
No interior de São Paulo, as referências FOB permaneceram relativamente mais firmes, com indicações entre R$ 202 e R$ 204 por saca. Esse comportamento é sustentado pela proximidade com os principais centros consumidores e pela logística mais favorável.
Assim como no feijão carioca, parte das negociações envolveu lotes com defeitos, vendidos com descontos para estimular o mercado. Já o feijão preto extra Tipo 1 segue mais protegido, devido à menor disponibilidade de grãos de alta qualidade.
Consumo no varejo segue sensível ao preço
No varejo, os preços do feijão preto permanecem majoritariamente entre R$ 5 e R$ 6 por quilo, nível que ainda permite algum giro nas vendas.
O setor, porém, acompanha com atenção o patamar de R$ 7 por quilo, considerado um limite sensível para o consumidor.
Segundo o analista, historicamente, quando o preço atinge esse nível, o consumo tende a recuar.
Mercado segue em lateralidade e depende da demanda
De forma geral, o mercado do feijão preto permanece em movimento lateral, com leve viés de baixa nas regiões produtoras.
A recuperação da liquidez, segundo Oliveira, ainda depende principalmente de uma melhora no consumo doméstico ou do surgimento de novos vetores de demanda, capazes de estimular o ritmo das negociações no setor.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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