Agro
Investimentos em logística e transportes no Brasil atingem R$ 76,5 bilhões e batem recorde em 11 anos
Os investimentos em infraestrutura de transportes e logística no Brasil alcançaram R$ 76,5 bilhões em 2025, o maior volume registrado nos últimos 11 anos. Os dados, divulgados pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), evidenciam uma retomada consistente dos aportes públicos e privados no setor, com impactos diretos na eficiência logística e no escoamento da produção agropecuária.
O resultado marca um novo ciclo de expansão, sustentado principalmente pela maior participação da iniciativa privada e pela consolidação de projetos estruturados de longo prazo.
Aportes ganham escala nos últimos anos
A evolução recente dos investimentos mostra uma mudança significativa no ritmo de crescimento. Entre 2019 e 2022, os aportes somaram pouco mais de R$ 138 bilhões, com média anual de cerca de R$ 33 bilhões.
Já no período mais recente, entre 2023 e 2025, o volume superou R$ 200 bilhões, com média anual acima de R$ 65 bilhões — praticamente o dobro do ciclo anterior.
Esse avanço reflete um ambiente mais favorável ao investimento, com maior segurança jurídica e ampliação das concessões e parcerias público-privadas.
Setor privado lidera investimentos
O protagonismo da iniciativa privada tem sido decisivo para esse crescimento. Em 2025, cerca de R$ 53,6 bilhões dos investimentos em infraestrutura vieram de empresas privadas, consolidando um modelo baseado em concessões e parcerias.
No setor portuário, foram viabilizados R$ 7,8 bilhões em autorizações e contratos apenas em 2025. No acumulado de 2023 a 2025, os investimentos chegaram a R$ 38,8 bilhões, representando um crescimento superior a 400% em relação ao período anterior.
Já os investimentos públicos no setor portuário somaram R$ 3,1 bilhões no mesmo intervalo, com avanço de 120%.
Aviação e hidrovias também avançam
Na aviação civil, o setor também registrou expansão relevante, com R$ 8,7 bilhões em investimentos privados entre 2023 e 2025. Projetos de ampliação da infraestrutura regional, como programas de concessão de aeroportos, contribuíram para interiorizar o desenvolvimento logístico.
As hidrovias, consideradas estratégicas para redução de custos no transporte de cargas, receberam cerca de R$ 1,3 bilhão em investimentos no período, fortalecendo a integração regional e ampliando a competitividade logística.
Movimentação de cargas bate recordes
Os efeitos dos investimentos já são visíveis nos indicadores operacionais. Em 2025, a movimentação nos portos brasileiros atingiu aproximadamente 1,35 bilhão de toneladas, o maior volume dos últimos sete anos.
No transporte hidroviário, o país registrou recorde histórico, com cerca de 140 milhões de toneladas movimentadas. Já a cabotagem — transporte entre portos nacionais — também apresentou crescimento expressivo, alcançando 223 milhões de toneladas.
Aviação registra maior fluxo de passageiros da história
O setor aéreo acompanhou essa expansão, com cerca de 130 milhões de passageiros transportados em 2025 — o maior volume já registrado no país. O crescimento reflete a recuperação da demanda e a ampliação da malha aérea, especialmente em regiões fora dos grandes centros.
Impactos diretos no agronegócio
O avanço da infraestrutura logística tem papel estratégico para o agronegócio brasileiro, especialmente na redução de custos de transporte e no aumento da competitividade internacional.
Com melhorias em portos, rodovias, aeroportos e hidrovias, o escoamento da produção agrícola tende a se tornar mais eficiente, reduzindo gargalos históricos e ampliando a capacidade de exportação.
O cenário indica que, com a continuidade dos investimentos, o Brasil pode consolidar uma logística mais moderna e integrada, fundamental para sustentar o crescimento do agro e da economia como um todo.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Safra recorde já não basta para garantir rentabilidade ao produtor
A perspectiva de uma nova safra recorde encontra o produtor brasileiro diante de um desafio que cresce na mesma proporção da produção: financiar uma atividade mais tecnológica, mecanizada e intensiva em capital, num ambiente de juros elevados, margens menores e bancos mais seletivos. O avanço do crédito privado amplia as alternativas disponíveis, mas também exige profissionalização da gestão e uma análise mais rigorosa sobre o retorno proporcionado pelo patrimônio investido.
Dados do Banco Central (BC), compilados por entidades do setor, mostram que 23,5% da carteira ativa de crédito rural apresentava algum nível de problema em julho de 2026. Eram R$ 207,5 bilhões em operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas. O indicador não representa apenas parcelas vencidas, mas revela o aumento do estresse financeiro acumulado depois de safras afetadas pelo clima, custos elevados e preços menos favoráveis.
Ao mesmo tempo, o financiamento bancário tradicional perdeu força. Em 12 meses, o volume de crédito rural concedido sem considerar instrumentos do mercado de capitais recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. A área atendida pelas linhas convencionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares.
Esse espaço vem sendo ocupado gradualmente por cooperativas, tradings, fornecedores de insumos, fundos de investimento e emissões no mercado de capitais. O estoque dos instrumentos privados de financiamento do agronegócio alcançou R$ 1,34 trilhão em julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Somente as Cédulas de Produto Rural (CPRs) somavam R$ 580,8 bilhões, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a diversificação das fontes de recursos é necessária, mas não pode ser confundida com crédito fácil ou capacidade ilimitada de endividamento.
“O crédito privado será cada vez mais importante para complementar o Plano Safra e o financiamento bancário. O produtor, porém, precisa avaliar o custo efetivo, o prazo, as garantias exigidas e a compatibilidade das parcelas com o fluxo de caixa da propriedade. Trocar uma dívida por outra mais cara, sem corrigir a origem do desequilíbrio, apenas transfere o problema para a safra seguinte”, afirma.
A necessidade de capital aumentou com a transformação da agropecuária brasileira. Produzir em escala passou a exigir máquinas de maior capacidade, agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, conectividade, sistemas de gestão, insumos tecnológicos e equipes especializadas. A valorização das terras também elevou o volume de patrimônio imobilizado nas operações.
Essa evolução permitiu ganhos de produtividade e consolidou o Brasil entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, fibras e energia. Mas também tornou as propriedades mais sensíveis ao custo do dinheiro. Quando os juros aumentam e as margens recuam, uma atividade pode apresentar lucro contábil e, ainda assim, não remunerar adequadamente todo o capital empregado.
É nesse ponto que ganha importância o conceito de Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA. O indicador calcula o resultado operacional do negócio depois de descontado o custo de todo o capital utilizado, inclusive recursos próprios, terras quitadas, máquinas e demais ativos.
Uma propriedade pode encerrar o ciclo com resultado positivo no balanço, mas destruir valor se o retorno obtido ficar abaixo do que aquele patrimônio poderia render em uma alternativa de menor risco. A terra própria, por exemplo, não deixa de ter custo econômico porque está quitada. Ela representa capital que poderia ser arrendado, vendido ou aplicado em outro investimento.
“O produtor sempre acompanhou produtividade, custo por hectare e preço de venda. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para medir a saúde econômica do negócio. Também é necessário saber se o resultado remunera a terra, as máquinas, o capital de giro e o risco assumido durante a safra”, diz Rezende.
A aplicação dessa análise não significa abandonar investimentos ou reduzir a produção. O objetivo é identificar quais atividades, áreas e estruturas realmente geram retorno. A avaliação pode mostrar que determinado talhão produz bem, mas possui custo elevado; que uma máquina permanece ociosa; ou que o arrendamento oferece resultado melhor do que a compra de terras financiada.
O mesmo raciocínio vale para a contratação de crédito. Recursos obtidos a juros superiores ao retorno esperado pela atividade diminuem o valor econômico da propriedade, mesmo quando ajudam a ampliar o faturamento. Por isso, crescimento de receita, aumento de área e recorde de produção não significam necessariamente fortalecimento financeiro.
A busca por recursos privados também coloca a governança no centro das negociações. Instituições financeiras e investidores analisam demonstrações contábeis, histórico de produção, previsibilidade de caixa, endividamento, garantias, regularidade ambiental e fundiária, contratos e capacidade de gestão. Quanto maior a qualidade dessas informações, maior tende a ser a possibilidade de acessar diferentes fontes e negociar condições melhores.
“Governança deixou de ser uma preocupação exclusiva das grandes empresas. O produtor que conhece seus números, separa as contas da família e da propriedade, mantém documentos regulares e apresenta informações confiáveis reduz a percepção de risco. Isso melhora sua posição diante dos financiadores e permite comparar propostas sem decidir apenas pela disponibilidade imediata do dinheiro”, acrescenta Rezende.
O modelo de financiamento do agronegócio tende a permanecer híbrido. Crédito rural, recursos obrigatórios, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e mercado de capitais continuarão convivendo, cada um com custos, prazos e riscos diferentes. O desafio será combinar essas fontes sem comprometer parcelas excessivas da produção futura ou oferecer garantias incompatíveis com o valor da operação.
A safra recorde continua sendo uma demonstração da capacidade produtiva brasileira. Para que esse desempenho se transforme em renda, entretanto, o produtor precisará acompanhar não apenas quantas toneladas colhe, mas quanto valor permanece depois de remunerados todos os recursos utilizados. Em uma agricultura intensiva em capital, produzir mais é importante; produzir com retorno econômico tornou-se decisivo.
Fonte: Pensar Agro
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