Política Nacional
Hugo Motta rebate críticas e diz que Congresso vota matérias importantes, mesmo com polarização
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), rebateu as críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o “baixo nível” do Congresso. “O presidente, quando se dirigiu a essa questão do Congresso, eu penso que ele quis fazer uma crítica mais à extrema direita”, disse ele, em entrevista nesta quarta-feira (15) à Globonews.
“Foi esse o Congresso que aprovou quase praticamente tudo que o governo enviou. Claro, modificando, mas foi um Congresso que esteve ao lado principalmente da agenda econômica do governo”, afirmou Motta. A crítica de Lula foi feita em evento relativo ao Dia do Professor, no Rio – do qual o próprio Motta participou.
Votações com polarização
Hugo Motta reforçou que a Câmara tem votado matérias importantes, mesmo com a polarização causada pela proximidade das eleições de 2026, e com o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro foi condenado no mês passado por golpe de Estado e outros crimes.
“Eu encaro isso com muita tranquilidade, de quem tem a certeza de que tem procurado, nesse mar revolto, manter o barco navegando e atravessando essa tempestade”, disse.
Motta voltou a afirmar que, apesar de tudo, a Câmara tem conseguido votar matérias importantes. “Tem conseguido entrar em agendas que, muitas das vezes, não têm tanta repercussão, mas dialogam diretamente com a sociedade, como a pauta da segurança pública e da educação.”
Relação com o Planalto
Motta disse que é preciso equilibrar e blindar a relação do Congresso com o Executivo. “Eu tenho que ter a responsabilidade de colocar o Legislativo onde ele tem de estar, colaborando com as agendas importantes para o País.
“Para isso, o presidente [Lula] precisa de certa forma acertar um pouco os ponteiros da governabilidade com os partidos políticos, principalmente os partidos de centro, para que com isso as matérias possam fluir com mais tranquilidade.”
Atrasos no orçamento
A execução orçamentária, segundo Motta, também tem prejudicado a relação entre o governo e os deputados por causa do atraso provocado por decisões do STF no ano passado e por ameaças de cortes e emendas para 2026.
“Milhares de municípios dependem dessas emendas para ter acesso a serviços essenciais, como saúde. Estou falando da minha base, do interior da Paraíba. Os meus prefeitos não param de me ligar, porque os serviços são contratados já esperando essas emendas”, explicou Motta. “Se isso [a cobrança] está acontecendo comigo, que sou o presidente, com certeza acontece com a grande maioria da Casa”, disse.
Motta quer alinhar com o Executivo uma forma de preservar o Orçamento do próximo ano, “para que, não só as emendas, mas também todas as políticas públicas do governo que estão na peça orçamentária, possam ser efetivadas em 2026”.
Exageros
O presidente da Câmara também avaliou que a polarização tem levado a exageros em ações penais contra deputados.
“A gente tem visto constantemente deputados respondendo a ações penais por crimes de opinião e falas na tribuna, muitas vezes colocando a imunidade parlamentar em xeque”, afirmou Motta. “Tem mais de 30 deputados com ações de vários tipos. É sagrado para o parlamentar o direito de parlar, de falar.”
Eduardo Bolsonaro
Hugo Motta também comentou o processo contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atualmente mora nos Estados Unidos. “É incompatível o exercício do mandato parlamentar sem a presença no País”, reafirmou Hugo Motta.
Eduardo Bolsonaro é acusado pelo PT de influenciar autoridades dos Estados Unidos para impor sanções contra integrantes do STF envolvidos na condenação de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro está levando falta nas sessões. “Nós daremos a ele o tratamento regimental que qualquer parlamentar teria, sem nenhum privilégio e sem também nenhum prejuízo. Atingindo um número de faltas, penso que deverá haver um questionamento sobre o mandato”, disse Motta.
8 de janeiro
Hugo Motta defendeu ainda que a Câmara e o Senado trabalhem juntos no projeto que pode reduzir as penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. “É preciso que esse texto seja construído a quatro mãos, também com a participação do Senado.”
Ele quer evitar que a Câmara aprove uma proposta e que, depois, o Senado decida não analisá-la, como aconteceu no episódio da PEC das Prerrogativas do mandato parlamentar. “Devemos trabalhar sempre por essa boa convivência entre os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. A ideia desse projeto é justamente nesse sentido.”
Mentores e manifestantes
O presidente da Câmara defendeu tratamento diferente para quem planejou o golpe de Estado e para os manifestantes de 8 de janeiro.
“Tinha, sim, pessoas que queriam dar o golpe. Agora, dizer que todas aquelas pessoas estavam ali organizadas para dar um golpe, eu acho que há um certo exagero nisso. Por isso, defendo o projeto de lei que possa fazer uma revisão [nas penas].”
Jair Bolsonaro
Motta ponderou ainda que o ex-presidente Jair Bolsonaro estava fora do País no dia das manifestações. “Ele foi embora do País, ele não estava aqui tramando. Não tem como você dar um golpe estando em outro país”, disse Motta.
“Acho que o papel [de Jair Bolsonaro] foi muito mais de conivência do que de atuação. É importante que isso fique bem explicado, para que, no final, não se cometa injustiça com ninguém.”
Reportagem – Francisco Brandão
Edição – Natalia Doederlein
Fonte: Câmara dos Deputados
Política Nacional
Comissão aprova proibição de leilão e penhora de espaços culturais tombados
A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 66/2026, do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que proíbe a penhora, o leilão e outras formas de expropriação de imóveis indispensáveis à preservação de bens tombados ou de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo poder público.
A vedação vale sempre que o ato puder:
- comprometer a continuidade, a integridade ou a autenticidade do bem cultural;
- alterar o uso do espaço de forma incompatível com sua função cultural; e
- descaracterizar social, simbólica, econômica ou funcionalmente a prática protegida.
A regra vale para execuções fiscais, trabalhistas, cíveis ou administrativas, contra entes públicos ou privados. O projeto busca proteger o chamado “espaço cultural essencial”, o imóvel público ou privado com função indispensável para a manutenção desses bens tombados.
Se já houver processo judicial ou administrativo de penhora ou leilão sobre um desses bens, o juiz ou a autoridade competente é obrigado a suspender a ação de forma imediata.
A medida pode ser determinada de ofício ou a pedido do Ministério Público, do órgão de proteção ao patrimônio cultural ou de entidade representativa da comunidade envolvida.
A suspensão não impede a apuração da dívida. O projeto determina que sejam priorizadas soluções alternativas, como negociação, parcelamento ou compensação. Qualquer decisão que afaste a suspensão deverá ser expressamente fundamentada, sob pena de nulidade.
Exceções
O projeto admite exceções à proibição, porém somente se forem cumpridos cumulativamente os seguintes requisitos:
- parecer técnico favorável do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou de órgão cultural competente;
- estudo de impacto cultural, social e econômico, com participação da comunidade;
- autorização expressa do Poder Legislativo correspondente — Congresso Nacional, Assembleia Legislativa, Câmara Legislativa ou Câmara Municipal —, conforme o nível de reconhecimento do bem.
O estudo de impacto cultural deverá avaliar a historicidade da prática, os vínculos sociais e identitários com o espaço, a possibilidade real de continuidade em outro local e os impactos sobre trabalho e renda. A ausência de qualquer requisito torna o ato nulo.
Alternativas à expropriação
O poder público deverá priorizar saídas que preservem o espaço cultural, como a renegociação de dívidas, a transferência da gestão do imóvel para associações ou cooperativas da comunidade e a celebração de convênios ou parcerias voltadas à sustentabilidade do bem protegido.
Lindbergh Farias citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — sede do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, reconhecido por lei federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil —, como exemplo do problema que o projeto busca resolver.

Para a relatora, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) o projeto assegura, na prática, a continuidade das manifestações culturais. “A eventual alienação ou descaracterização desses espaços não representa apenas uma mudança de titularidade patrimonial, mas pode implicar a ruptura de vínculos históricos, sociais e simbólicos que sustentam determinadas práticas culturais”, disse.
Sâmia Bomfim afirmou que as alternativas propostas pelo projeto, como a renegociação de dívidas, a gestão compartilhada e a celebração de parcerias, oferecem uma perspectiva equilibrada entre a proteção do patrimônio cultural e a viabilidade econômica dos espaços envolvidos, buscando o diálogo e o consenso.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Roberto Seabra
Fonte: Câmara dos Deputados
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