Agro
Corte da Selic é insuficiente para reaquecer economia, avalia CNI
A decisão do Banco Central do Brasil, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual nesta semana foi considerada correta, porém insuficiente para impulsionar a economia, segundo avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
De acordo com a entidade, a medida ainda não é capaz de interromper a desaceleração da atividade econômica, destravar investimentos ou reduzir o nível de endividamento de famílias e empresas — reflexos de uma política monetária considerada restritiva.
CNI cobra cortes mais intensos na taxa de juros
Para Ricardo Alban, presidente da CNI, o cenário atual da inflação já permitiria uma redução mais significativa da taxa básica de juros.
Segundo ele, a desaceleração dos preços e a ancoragem das expectativas dentro da meta reforçam a necessidade de uma atuação mais incisiva do Banco Central.
A entidade defende que o Copom intensifique o ritmo de cortes já na próxima reunião, prevista para o fim de abril, como forma de estimular investimentos, aliviar o endividamento e retomar o crescimento econômico.
Inflação controlada abre espaço para flexibilização
Os dados recentes indicam um cenário de inflação sob controle. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses até fevereiro recuou para 3,81%, frente aos 4,44% registrados anteriormente.
Além disso, as projeções do mercado seguem dentro do intervalo da meta de inflação, conforme estimativas que apontam:
- 4,1% em 2026
- 3,8% em 2027
- 3,5% em 2028
Mesmo diante de pressões externas, como a alta do petróleo influenciada por tensões geopolíticas, a CNI avalia que há espaço para cortes mais robustos sem comprometer a estabilidade de preços.
Juros reais elevados mantêm política monetária restritiva
Mesmo com a redução recente, a Selic permanece em patamar elevado, atualmente em 14,75% ao ano. Isso resulta em uma taxa de juros real de cerca de 10,4% ao ano, significativamente acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central, em torno de 5%.
Segundo cálculos da CNI, o nível atual dos juros está cerca de 4,6 pontos percentuais acima do necessário para equilibrar crescimento econômico e controle inflacionário.
O Brasil, inclusive, segue entre os países com maiores juros reais do mundo, de acordo com levantamento do Bradesco.
Atividade econômica perde força com juros altos
A manutenção de juros elevados por um período prolongado tem impactado diretamente o desempenho da economia brasileira.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,3% em 2025, abaixo dos 3,4% registrados em 2024.
O consumo das famílias também perdeu ritmo, com crescimento reduzido de 5,1% para 1,3% no mesmo período. Já os investimentos desaceleraram de 6,9% para 2,9%.
Endividamento e inadimplência avançam no país
O cenário de crédito caro tem elevado o comprometimento da renda das famílias com dívidas.
Segundo dados do Banco Central, o percentual da renda comprometida com empréstimos subiu de 47,7% em dezembro de 2023 para 49,7% em dezembro de 2025.
Além disso, a inadimplência das pessoas físicas também aumentou, passando de 3,7% em janeiro de 2024 para 5,2% em janeiro de 2026, refletindo o impacto dos juros elevados sobre o orçamento das famílias.
Empresas enfrentam pressão e aumento de reestruturações
O ambiente de juros altos também pressiona o caixa das empresas, elevando o custo do crédito e dificultando a rolagem de dívidas.
Como consequência, o número de pedidos de recuperação extrajudicial tem crescido, com negociações que já ultrapassam R$ 100 bilhões — um recorde histórico.
Esse movimento evidencia a dificuldade das empresas em lidar com o atual cenário financeiro, reforçando a avaliação da CNI sobre a necessidade de uma política monetária menos restritiva.
Perspectiva: necessidade de estímulo para retomada econômica
Para a CNI, uma flexibilização mais intensa da taxa de juros é fundamental para restabelecer o crescimento sustentável da economia brasileira.
A entidade avalia que a redução mais acelerada da Selic pode melhorar as condições de investimento, estimular o consumo e contribuir para a recuperação da produtividade e do bem-estar social no país.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Safra recorde deve superar capacidade dos armazéns em 133 milhões de toneladas
A produção brasileira de grãos poderá superar a capacidade de armazenagem do país em aproximadamente 133 milhões de toneladas na safra 2026/27. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 366,6 milhões de toneladas, enquanto os armazéns brasileiros comportam 233,8 milhões de toneladas, segundo o dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A estrutura existente equivale a cerca de 64% do volume que poderá ser produzido. A diferença expõe um dos principais gargalos do agronegócio brasileiro: a produção avança em ritmo superior à construção e à modernização de silos, sobretudo dentro das propriedades rurais e nas novas regiões produtoras.
Na prática, a limitação reduz a capacidade do agricultor de escolher o melhor momento para comercializar. Sem espaço próprio, parte dos produtores precisa retirar rapidamente os grãos da fazenda e negociar durante a colheita, período marcado pela concentração da oferta, aumento da procura por caminhões e pressão sobre os preços e os fretes.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), o problema deixou de ser apenas logístico e passou a afetar diretamente a renda no campo.
“Produzir uma safra recorde é uma conquista, mas o produtor precisa ter condições de transformar esse volume em renda. Sem armazenagem, ele perde liberdade para decidir quando vender e pode ser obrigado a negociar justamente no período de maior oferta, quando os preços tendem a estar mais pressionados”, afirma Rezende.
“Um silo dentro da propriedade não serve apenas para guardar grãos. Ele permite preservar a qualidade, reduzir perdas, organizar o transporte e esperar uma condição comercial mais favorável. Em uma atividade de margens cada vez mais estreitas, essa capacidade de decisão pode determinar o resultado de toda a safra”, acrescenta.
Segundo Rezende, a ampliação dos armazéns exige financiamento de longo prazo, previsibilidade e condições compatíveis com o período necessário para recuperar o investimento. “O Brasil não pode continuar ampliando a produção sem fazer o mesmo esforço na infraestrutura. A armazenagem precisa ser tratada como parte do sistema produtivo, porque o gargalo acaba transferindo custos, riscos e perdas para quem está no campo”, diz.
A capacidade de armazenagem brasileira cresceu 1,1% no segundo semestre de 2025 e chegou a 233,8 milhões de toneladas. No mesmo período, o país contabilizava 9.668 estabelecimentos com estruturas destinadas à guarda de produtos agrícolas.
O avanço, porém, não acompanha o ritmo das lavouras. A safra 2025/26 foi estimada em 361,7 milhões de toneladas. Para o ciclo 2026/27, a projeção de 366,6 milhões representa mais 4,9 milhões de toneladas chegando ao mercado, com novos recordes esperados em culturas importantes.
A diferença entre produção e capacidade estática não significa que 133 milhões de toneladas ficarão literalmente sem local para serem guardadas. Os armazéns podem receber mais de uma carga durante o ano, e as culturas são colhidas em épocas diferentes. Mesmo assim, a comparação mostra que a estrutura disponível é insuficiente nos momentos de concentração da colheita e está distribuída de forma desigual pelo território.
O problema é mais grave nas regiões em que a produção cresceu rapidamente sem a instalação de silos na mesma proporção. Nesses locais, os grãos percorrem distâncias maiores até unidades armazenadoras, elevando o consumo de combustível, o custo do transporte e o tempo de espera para descarga.
As filas também podem atrasar a retirada da produção da propriedade e a entrada das máquinas em novas áreas. Quando soja e milho disputam simultaneamente caminhões e espaço nos armazéns, o gargalo alcança cooperativas, tradings, indústrias e terminais de exportação.
A ampliação da armazenagem nas fazendas permitiria distribuir melhor o fluxo dos grãos ao longo do ano e reduzir a pressão sobre rodovias e terminais durante a colheita. Também daria ao produtor melhores condições para separar lotes, conservar a qualidade e negociar o produto de acordo com as oportunidades do mercado.
O desafio da safra 2026/27, portanto, não estará apenas em produzir mais. O país terá de encontrar espaço, transporte e condições comerciais para transformar 366,6 milhões de toneladas de grãos em renda efetiva para o produtor.
Fonte: Pensar Agro
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