Agro
Café retoma alta após forte queda: mercado reage à previsão de safra recorde e variações climáticas
Preços do café voltam a subir após forte queda nas bolsas internacionais
Após encerrar a segunda-feira (23) em forte baixa, o mercado de café iniciou a terça-feira (24) com recuperação moderada nas bolsas internacionais. Os contratos do grão voltaram a operar no campo positivo, refletindo o comportamento volátil que tem marcado as negociações nas últimas semanas.
De acordo com informações da Pine Agronegócios, o momento atual é de oferta ajustada no mercado físico, enquanto os contratos futuros seguem influenciados por movimentos especulativos e pela atuação de robôs e operadores financeiros.
Expectativa de safra recorde no Brasil continua pressionando o mercado
O cenário de preços segue condicionado à expectativa de uma safra recorde de café no Brasil em 2026, o que tem limitado o avanço das cotações, principalmente na bolsa de Nova York (ICE Futures US).
Segundo o analista Marcelo Moreira, da Archer Consulting, o mercado já precificou a entrada da safra de conilon (robusta), cuja colheita começa em março em Rondônia e deve abastecer o mercado a partir de abril.
“Consumidores industriais e tradings continuam comprando apenas o essencial. Dificilmente veremos novamente Nova York acima de 350 centavos de dólar por libra e Londres acima de US$ 4.500 por tonelada. Apenas um evento climático severo que prejudique a safra 27/28 poderia mudar esse cenário”, explica Moreira.
Cotações mostram leve recuperação nesta terça-feira
Por volta das 9h40 (horário de Brasília), o contrato de arábica para março/2026 registrava alta de 80 pontos, cotado a 281,95 centavos de dólar por libra-peso. Já o contrato de maio/2026 subia 60 pontos, para 278,65 centavos, enquanto julho/2026 avançava 90 pontos, chegando a 274,50 centavos/lbp.
No caso do robusta, as cotações também apresentavam ganhos:
- Março/2026: US$ 3.623/t, alta de US$ 81
- Maio/2026: US$ 3.568/t, aumento de US$ 8
- Julho/2026: US$ 3.508/t, acréscimo de US$ 19
Clima segue como fator de atenção nas regiões produtoras
De acordo com o Climatempo, a partir de quarta-feira (25) as chuvas perdem intensidade no Sul de Minas e Triângulo Mineiro, mas permanecem persistentes no Espírito Santo, com acumulados que podem chegar a 30 mm.
Na segunda metade da semana, o clima continuará instável, com pancadas recorrentes nas áreas produtoras, especialmente entre quinta e sexta-feira. O Sul de Minas deve concentrar os maiores volumes de chuva nesse período, condição que pode influenciar o desenvolvimento das lavouras.
Segunda-feira foi de fortes perdas com otimismo sobre a safra
Na véspera, o café arábica havia encerrado o pregão com queda acentuada, atingindo os menores níveis em seis meses e meio. O contrato de março/2026 fechou a 281,15 centavos/lbp, recuo de 7,15 centavos (–2,5%), enquanto o de maio/2026 terminou a 278,05 centavos/lbp, queda de 7,65 centavos (–2,7%).
As condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras do Brasil — especialmente para o café arábica — reforçaram o otimismo com a colheita e intensificaram a pressão sobre as cotações.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Safra recorde já não basta para garantir rentabilidade ao produtor
A perspectiva de uma nova safra recorde encontra o produtor brasileiro diante de um desafio que cresce na mesma proporção da produção: financiar uma atividade mais tecnológica, mecanizada e intensiva em capital, num ambiente de juros elevados, margens menores e bancos mais seletivos. O avanço do crédito privado amplia as alternativas disponíveis, mas também exige profissionalização da gestão e uma análise mais rigorosa sobre o retorno proporcionado pelo patrimônio investido.
Dados do Banco Central (BC), compilados por entidades do setor, mostram que 23,5% da carteira ativa de crédito rural apresentava algum nível de problema em julho de 2026. Eram R$ 207,5 bilhões em operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas. O indicador não representa apenas parcelas vencidas, mas revela o aumento do estresse financeiro acumulado depois de safras afetadas pelo clima, custos elevados e preços menos favoráveis.
Ao mesmo tempo, o financiamento bancário tradicional perdeu força. Em 12 meses, o volume de crédito rural concedido sem considerar instrumentos do mercado de capitais recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. A área atendida pelas linhas convencionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares.
Esse espaço vem sendo ocupado gradualmente por cooperativas, tradings, fornecedores de insumos, fundos de investimento e emissões no mercado de capitais. O estoque dos instrumentos privados de financiamento do agronegócio alcançou R$ 1,34 trilhão em julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Somente as Cédulas de Produto Rural (CPRs) somavam R$ 580,8 bilhões, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a diversificação das fontes de recursos é necessária, mas não pode ser confundida com crédito fácil ou capacidade ilimitada de endividamento.
“O crédito privado será cada vez mais importante para complementar o Plano Safra e o financiamento bancário. O produtor, porém, precisa avaliar o custo efetivo, o prazo, as garantias exigidas e a compatibilidade das parcelas com o fluxo de caixa da propriedade. Trocar uma dívida por outra mais cara, sem corrigir a origem do desequilíbrio, apenas transfere o problema para a safra seguinte”, afirma.
A necessidade de capital aumentou com a transformação da agropecuária brasileira. Produzir em escala passou a exigir máquinas de maior capacidade, agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, conectividade, sistemas de gestão, insumos tecnológicos e equipes especializadas. A valorização das terras também elevou o volume de patrimônio imobilizado nas operações.
Essa evolução permitiu ganhos de produtividade e consolidou o Brasil entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, fibras e energia. Mas também tornou as propriedades mais sensíveis ao custo do dinheiro. Quando os juros aumentam e as margens recuam, uma atividade pode apresentar lucro contábil e, ainda assim, não remunerar adequadamente todo o capital empregado.
É nesse ponto que ganha importância o conceito de Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA. O indicador calcula o resultado operacional do negócio depois de descontado o custo de todo o capital utilizado, inclusive recursos próprios, terras quitadas, máquinas e demais ativos.
Uma propriedade pode encerrar o ciclo com resultado positivo no balanço, mas destruir valor se o retorno obtido ficar abaixo do que aquele patrimônio poderia render em uma alternativa de menor risco. A terra própria, por exemplo, não deixa de ter custo econômico porque está quitada. Ela representa capital que poderia ser arrendado, vendido ou aplicado em outro investimento.
“O produtor sempre acompanhou produtividade, custo por hectare e preço de venda. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para medir a saúde econômica do negócio. Também é necessário saber se o resultado remunera a terra, as máquinas, o capital de giro e o risco assumido durante a safra”, diz Rezende.
A aplicação dessa análise não significa abandonar investimentos ou reduzir a produção. O objetivo é identificar quais atividades, áreas e estruturas realmente geram retorno. A avaliação pode mostrar que determinado talhão produz bem, mas possui custo elevado; que uma máquina permanece ociosa; ou que o arrendamento oferece resultado melhor do que a compra de terras financiada.
O mesmo raciocínio vale para a contratação de crédito. Recursos obtidos a juros superiores ao retorno esperado pela atividade diminuem o valor econômico da propriedade, mesmo quando ajudam a ampliar o faturamento. Por isso, crescimento de receita, aumento de área e recorde de produção não significam necessariamente fortalecimento financeiro.
A busca por recursos privados também coloca a governança no centro das negociações. Instituições financeiras e investidores analisam demonstrações contábeis, histórico de produção, previsibilidade de caixa, endividamento, garantias, regularidade ambiental e fundiária, contratos e capacidade de gestão. Quanto maior a qualidade dessas informações, maior tende a ser a possibilidade de acessar diferentes fontes e negociar condições melhores.
“Governança deixou de ser uma preocupação exclusiva das grandes empresas. O produtor que conhece seus números, separa as contas da família e da propriedade, mantém documentos regulares e apresenta informações confiáveis reduz a percepção de risco. Isso melhora sua posição diante dos financiadores e permite comparar propostas sem decidir apenas pela disponibilidade imediata do dinheiro”, acrescenta Rezende.
O modelo de financiamento do agronegócio tende a permanecer híbrido. Crédito rural, recursos obrigatórios, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e mercado de capitais continuarão convivendo, cada um com custos, prazos e riscos diferentes. O desafio será combinar essas fontes sem comprometer parcelas excessivas da produção futura ou oferecer garantias incompatíveis com o valor da operação.
A safra recorde continua sendo uma demonstração da capacidade produtiva brasileira. Para que esse desempenho se transforme em renda, entretanto, o produtor precisará acompanhar não apenas quantas toneladas colhe, mas quanto valor permanece depois de remunerados todos os recursos utilizados. Em uma agricultura intensiva em capital, produzir mais é importante; produzir com retorno econômico tornou-se decisivo.
Fonte: Pensar Agro
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