Agro
Café inicia junho sob alerta climático: risco de geadas e granizo em Minas sustenta atenção do mercado
O mercado global de café começou o mês de junho com os investidores atentos às condições climáticas nas principais regiões produtoras do Brasil. A possibilidade de geadas no cinturão cafeeiro e os danos provocados por tempestades de granizo em áreas do Sul de Minas Gerais voltaram a colocar o clima no centro das atenções, elevando a cautela entre produtores, exportadores e operadores das bolsas internacionais.
As preocupações ocorrem em um momento estratégico para a cafeicultura brasileira, com a colheita avançando em diversas regiões e o mercado acompanhando qualquer fator que possa afetar a produtividade da safra atual e o potencial produtivo de 2026.
Café sobe nas bolsas internacionais
Nos primeiros negócios desta segunda-feira (1º), os contratos futuros do café registravam leves ganhos nas principais bolsas globais.
Na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), referência para o café arábica, os contratos apresentavam valorização moderada:
- Julho/26: 266,00 cents/lbp (+40 pontos)
- Setembro/26: 259,25 cents/lbp (+55 pontos)
- Dezembro/26: 251,60 cents/lbp (+40 pontos)
Já na Bolsa de Londres, que negocia o café robusta, os contratos também operavam em alta:
- Julho/26: US$ 3.479 por tonelada (+3 pontos)
- Setembro/26: US$ 3.356 por tonelada (+9 pontos)
- Novembro/26: US$ 3.283 por tonelada (+11 pontos)
O movimento reflete a busca do mercado por proteção diante das incertezas climáticas que tradicionalmente marcam os meses de inverno no Brasil.
Geadas voltam ao radar dos cafeicultores
A chegada de massas de ar frio ao Centro-Sul brasileiro elevou o nível de monitoramento nas regiões produtoras. Embora não haja registros de geadas severas até o momento, os modelos meteorológicos indicam temperaturas mais baixas em áreas cafeeiras nas próximas semanas, cenário que costuma aumentar a volatilidade dos preços.
Minas Gerais, maior produtor de café arábica do país, concentra grande parte das atenções. Produtores acompanham diariamente as previsões climáticas, especialmente em regiões de maior altitude, historicamente mais vulneráveis aos eventos de frio intenso.
O mercado internacional reage rapidamente a qualquer ameaça de geada no Brasil devido à relevância do país no abastecimento global. O Brasil responde por aproximadamente um terço da produção mundial de café e lidera as exportações do produto.
Granizo causa prejuízos no Sul de Minas
Além das preocupações com o frio, tempestades de granizo registradas na última sexta-feira (30) atingiram áreas produtoras nos municípios de Boa Esperança e Campo do Meio, importantes polos cafeeiros do Sul de Minas.
Relatos de produtores apontam danos em lavouras que estão em fase inicial de colheita. Equipes técnicas e entidades ligadas ao setor seguem realizando levantamentos para dimensionar os prejuízos, mas ainda não há um balanço oficial consolidado sobre a extensão das perdas.
Dependendo da intensidade dos danos, os impactos podem afetar tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos nas áreas atingidas.
Colheita avança, mas clima ainda preocupa
A safra brasileira segue avançando nas principais regiões produtoras, embora chuvas registradas ao longo de maio tenham provocado atrasos pontuais em algumas áreas.
Com a melhora das condições climáticas, a expectativa do setor é de aceleração dos trabalhos de campo durante as próximas semanas. No entanto, o comportamento do clima continuará sendo decisivo para o ritmo da colheita e para as perspectivas de oferta ao longo do segundo semestre.
Analistas destacam que, em um ambiente de estoques globais relativamente ajustados, qualquer redução na produção brasileira ou ameaça à qualidade da safra tende a repercutir imediatamente nos preços internacionais.
Mercado físico segue com negociações moderadas
No mercado interno, as negociações permanecem em ritmo cauteloso. Muitos produtores optam por acompanhar o avanço da colheita e a evolução das condições climáticas antes de ampliar a comercialização da safra.
A combinação entre incertezas climáticas, oferta global limitada e expectativa em torno da produção brasileira mantém o mercado em posição de alerta neste início de junho, período considerado decisivo para a formação dos preços do café nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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