Agro
Pesquisa internacional avalia maior seca dos últimos 40 anos na Amazônia
Um estudo recente, com colaboração da Universidade Federal de Santa Catarina e conduzido pelo World Weather Attribution (WWA), um grupo internacional de cientistas dedicados ao estudo do clima, lança luz sobre os efeitos devastadores da mudança climática induzida pelo homem na histórica seca que assolou a Amazônia em 2023.
A estiagem, considerada a mais grave em 40 anos, atingiu 8 Estados da região amazônica, afetou a vida de 500 mil pessoas, provocou a morte de botos ameaçados de extinção e comprometeu a qualidade do solo de áreas destinadas para a agricultura e pecuária em cerca de 80 municípios do Amazonas e 144 do Pará. Também interrompeu o tráfego de navios, elevando os custos das rotas comerciais da região Norte do Brasil.
De acordo com a pesquisa, a mudança climática está diretamente relacionada à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas na região, fatores que contribuíram significativamente para a gravidade da estiagem do ano passado.
Os especialistas do WWA identificaram que a mudança climática tornou a seca de 2023 aproximadamente 30 vezes mais provável de ocorrer em comparação com um cenário onde apenas fenômenos naturais, como o El Niño, estivessem em ação. Essa constatação sublinha a influência crescente das atividades humanas no desequilíbrio dos sistemas naturais, especialmente em áreas vulneráveis como a Amazônia.
A análise aponta para uma “combinação potente” de redução da precipitação e aumento do calor como principais impulsionadores da seca na região, destacando a interação complexa entre esses fatores sob a influência do aquecimento global. Este fenômeno não apenas amplia a probabilidade de ocorrência de secas mais severas e prolongadas, mas também ressalta a urgência de abordar as questões climáticas globais.
Este estudo evidencia ainda mais a necessidade crítica de políticas eficazes de mitigação da mudança climática e de adaptação, para proteger e preservar a Amazônia. A região, conhecida como o “pulmão do planeta”, desempenha um papel crucial na regulação do clima global e no sequestro de carbono, além de ser um hotspot de biodiversidade.
A colaboração internacional e a pesquisa científica são fundamentais para entender as dinâmicas complexas da mudança climática e seus impactos específicos em diferentes partes do mundo. O estudo reforça a importância da ação global coordenada e do compromisso com a redução de emissões de gases de efeito estufa, bem como com a implementação de estratégias de conservação e recuperação ambiental, para evitar futuras crises climáticas e preservar ecossistemas vitais como a Amazônia para as próximas gerações.
Acesse a pesquisa clicando aqui.
Veja abaixo a conclusão do trabalho, traduzido na íntegra:
A seca na Amazônia de 2023 é frequentemente citada como a mais extrema já registrada na história. Ela ocorre em um momento em que comunidades por toda a região enfrentam desafios distintos e interligados relacionados à seca histórica, eventos climáticos extremos e recentes intensificados pelos padrões climáticos da La Niña, desafios de governança e desenvolvimento, bem como fragilidade, conflito e violência.
O contexto de vulnerabilidade e exposição da seca destaca as maneiras pelas quais as mudanças climáticas podem agravar desafios locais, nacionais e regionais subjacentes, resultando em vulnerabilidades e exposições similares mesmo em contextos aparentemente diferentes. Diferenças no microclima e sistemas sociopolíticos podem produzir vulnerabilidades diferenciadas a calor extremo, incêndios florestais e tempestades de granizo, por exemplo, em partes da Bolívia, Brasil e Peru, respectivamente.
No entanto, populações de pequenos agricultores, indígenas, comunidades rurais e ribeirinhas nesses países exemplificam até que ponto eventos climáticos extremos e o clima impactam de forma similar setores específicos em diferentes contextos. Essa dinâmica lança luz sobre o potencial para ações climáticas amplas em resposta à vulnerabilidade.
A dependência da agricultura, água doce, cadeias de suprimento locais-globais (de importações e exportações) e assistência financeira entre esses grupos chama atenção renovada para a necessidade de uma transformação sistêmica em antecipação a eventos climáticos mais intensos e frequentes no futuro.
Ao mesmo tempo, sistemas, políticas e processos em gestão de energia, água e uso da terra, legislação sobre posse e propriedade de terras, bem como capacitação em resposta humanitária nacional e internacional sugerem que abordar a vulnerabilidade e exposição deve ser uma prioridade na ação climática e institucional na bacia Amazônica.
Fonte: Pensar Agro
Agro
Plano Brasil Soberano: Governo amplia crédito para fertilizantes
Fabricantes de fertilizantes, produtores de matérias-primas intermediárias e mineradoras que abastecem o setor poderão contratar capital de giro pelo Plano Brasil Soberano. A mudança amplia o alcance do programa e procura dar fôlego financeiro a uma cadeia considerada estratégica para o agronegócio brasileiro.
Projetos industriais e tecnológicos ligados ao beneficiamento, refino e transformação de minerais críticos e estratégicos também terão acesso a recursos com custo reduzido. O encargo da fonte de financiamento caiu para 3% ao ano, ante percentuais que chegavam a 8% na aquisição de máquinas e equipamentos e a 6,5% em determinados investimentos.
A decisão foi tomada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em reunião extraordinária realizada no fim de agosto. O colegiado também prorrogou por 12 meses o prazo para apresentação dos pedidos de financiamento ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As empresas elegíveis poderão protocolar as solicitações até 31 de dezembro de 2027.
Para o produtor rural, o efeito não será direto. As linhas são destinadas às empresas que produzem, processam ou fornecem insumos para a fabricação de adubos. O objetivo é melhorar as condições financeiras da indústria e reduzir riscos de interrupção no abastecimento do campo.
A inclusão do capital de giro atende a uma característica do setor. Muitas empresas precisam pagar antecipadamente pelas matérias-primas importadas, arcar com frete, armazenagem e processamento e somente depois receber pelas vendas realizadas aos produtores ou distribuidores.
Esse intervalo exige grande disponibilidade de caixa. Quando o crédito fica caro ou escasso, as empresas podem reduzir compras, estoques e produção. A consequência chega às propriedades na forma de menor oferta, dificuldade para programar entregas e maior exposição às oscilações de preços.
Antes da mudança, as empresas da cadeia de fertilizantes podiam recorrer ao Plano Brasil Soberano principalmente para comprar máquinas ou executar projetos de investimento. Agora, os recursos também poderão financiar despesas necessárias ao funcionamento diário das operações.
A medida ganha importância porque o Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza. Essa dependência deixa a produção agrícola vulnerável ao câmbio, às cotações internacionais, aos custos marítimos e a conflitos capazes de interromper rotas ou restringir a oferta mundial.
O país responde por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes e ocupa a quarta posição entre os maiores consumidores. Soja, milho e cana-de-açúcar representam mais de 73% da demanda nacional, o que transforma o insumo em um componente decisivo dos custos das principais cadeias agrícolas.
O crédito mais barato para minerais estratégicos procura estimular investimentos em etapas que ainda são pouco desenvolvidas no Brasil. O país possui reservas minerais importantes, mas parte do material extraído é exportada sem processamento ou não chega a ser transformada internamente nos produtos necessários à agricultura.
Ao apoiar o beneficiamento, o refino e a transformação dentro do país, o governo tenta ampliar a capacidade industrial e diminuir a dependência de produtos acabados vindos do exterior. O resultado, entretanto, dependerá da execução dos projetos, que podem exigir licenciamento, infraestrutura, tecnologia e vários anos até o início da produção.
O percentual de 3% ao ano não representa necessariamente a taxa final que será paga pelas empresas. Ele corresponde ao custo da fonte de recursos e já considera a remuneração do BNDES. Nas operações indiretas, realizadas por bancos credenciados, ainda podem existir encargos do agente financeiro e custos relacionados ao risco do tomador.
Por isso, a medida também não garante uma queda imediata no preço do fertilizante vendido ao agricultor. As cotações continuarão sujeitas ao câmbio, aos preços internacionais, ao frete, à oferta mundial de nutrientes e à demanda no período de plantio.
O ganho mais provável no curto prazo é a melhora das condições para que fabricantes e fornecedores mantenham estoques e cumpram contratos. No longo prazo, se os investimentos aumentarem a produção e o processamento de matérias-primas no Brasil, o setor poderá reduzir a exposição a crises externas e ganhar maior previsibilidade.
O acesso às linhas será restrito aos segmentos definidos conjuntamente pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e pelo Ministério da Fazenda. A relação de atividades autorizadas consta das portarias que regulamentam o Plano Brasil Soberano.
Criado para apoiar empresas afetadas pelo aumento das tarifas norte-americanas e pela instabilidade do comércio internacional, o programa passa a alcançar uma cadeia diretamente ligada à segurança produtiva do país. Para o campo, o efeito concreto será medido pela capacidade da política de ampliar a oferta interna, evitar falta de insumos e reduzir a dependência que hoje transforma qualquer crise internacional em custo adicional dentro da porteira.
Fonte: Pensar Agro
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