Agro
China avança no mercado global de carnes e eleva concorrência com exportadores como o Brasil
O mercado global de proteínas animais passa por uma transformação relevante, com a China deixando de atuar apenas como grande compradora para assumir também o papel de fornecedora. A mudança altera a dinâmica do comércio internacional e acende um alerta entre países exportadores, como o Brasil.
A avaliação é de Nivio Domingues, fundador e diretor da Samba Export Brazil Origin Commodities, ao analisar o processo de recuperação da produção chinesa e seus impactos no fluxo global de carnes.
Recuperação produtiva muda o jogo global
Durante anos, o mercado operou sob uma lógica relativamente previsível: a China importava volumes expressivos de carne, enquanto países como o Brasil ampliavam sua presença como fornecedores estratégicos.
Esse cenário começou a mudar após crises sanitárias, como a peste suína africana e episódios de gripe aviária, que afetaram significativamente a produção chinesa. Com o controle desses eventos, o país asiático iniciou um forte processo de recomposição de seu rebanho e estrutura produtiva.
Carne suína: queda nas importações e avanço interno
O movimento é mais evidente no setor de carne suína. A produção chinesa, que caiu para 36,3 milhões de toneladas em 2020, deve alcançar cerca de 59,5 milhões de toneladas neste ano.
Como reflexo, as importações recuaram de 5,3 milhões de toneladas para menos de 1 milhão, enquanto as exportações devem atingir aproximadamente 145 mil toneladas. Em 2020, o Brasil chegou a responder por 55% das compras chinesas — participação que tende a diminuir diante da nova realidade.
Frango: China se torna exportadora líquida
No segmento de carne de frango, a tendência também é de expansão. A produção chinesa deve crescer de 14,6 milhões de toneladas em 2020 para cerca de 17,3 milhões de toneladas em 2026, impulsionada por políticas de incentivo, como subsídios e maior disponibilidade de ração.
Com isso, a China avança para se consolidar como exportadora líquida, com embarques estimados em 1,4 milhão de toneladas, ampliando a concorrência em mercados internacionais.
Brasil mantém protagonismo global
Apesar da mudança no cenário, o Brasil segue como um dos principais players globais no setor de proteínas. A produção nacional de carnes bovina, suína e de frango deve atingir 33,1 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 11% da produção mundial.
No comércio exterior, o país deve exportar aproximadamente 11,3 milhões de toneladas, respondendo por 29% das exportações globais — um indicador da relevância brasileira no abastecimento internacional.
Carne bovina ainda sustenta demanda externa chinesa
Diferentemente dos demais segmentos, a China ainda depende significativamente das importações de carne bovina. A produção local está estimada em 7,6 milhões de toneladas, enquanto o consumo deve alcançar 10,8 milhões.
As importações projetadas somam 3,2 milhões de toneladas, embora o volume represente uma queda de cerca de 13% em relação a 2025. A retração está associada à adoção de cotas pelo governo chinês, com o objetivo de proteger o mercado interno.
Novo cenário exige estratégia do agro brasileiro
A mudança no posicionamento da China no mercado global de carnes sinaliza um ambiente mais competitivo e dinâmico. Para o Brasil, o desafio será manter sua competitividade, diversificar mercados e agregar valor às exportações.
Com a evolução da produção chinesa e a redução de sua dependência externa, o comércio internacional de proteínas entra em uma nova fase — na qual eficiência, sanidade e estratégia comercial serão determinantes para sustentar participação e crescimento.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Lideranças alertam que crédito recorde é ineficiente sem juros menores e seguro rural
O anúncio do Plano Safra 2026/27, marcado para a próxima terça-feira (30.06), chega ao produtor rural em meio a um clima de ceticismo. Enquanto o governo federal projeta um volume recorde entre R$ 570 bilhões e R$ 652 bilhões, as lideranças do setor alertam que, em um cenário de juros elevados e margens de lucro espremidas, o montante nominal importa menos do que a efetividade das taxas de equalização. O que o campo busca não é apenas liquidez, mas uma estratégia de sobrevivência que contemple o endividamento acumulado nos últimos ciclos.
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o plano precisa ir além do anúncio de “recordes” orçamentários. A crítica central das bancadas é que o governo carece de uma visão estrutural de longo prazo: enquanto o custo de capital subiu, a subvenção ao seguro rural foi tratada como variável de ajuste orçamentário. Sem proteção contra intempéries, o crédito acaba financiando o risco, e não a produtividade, perpetuando o ciclo de inadimplência que já preocupa o Banco Central.
A Aprosoja Mato Grosso ecoa o descontentamento com a falta de previsibilidade. Para a entidade, de nada adianta um volume robusto se as linhas de investimento — essenciais para armazenagem e modernização — permanecerem travadas ou de difícil acesso para o médio produtor. O setor produtivo aponta que a paridade de importação e os custos de produção em patamares históricos exigem que o Plano Safra seja, antes de tudo, um instrumento de competitividade internacional, e não uma peça de marketing político que ignora a realidade técnica das fazendas.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto), o setor está diante de uma encruzilhada. “O governo insiste em focar no volume total de crédito como se isso, por si só, garantisse a estabilidade da safra, mas esquece que o custo desse dinheiro tornou-se proibitivo para grande parte dos produtores. Não precisamos de um recorde de bilhões disponíveis se as taxas de juros não forem condizentes com a realidade de um setor que, nos últimos dois anos, foi duramente atingido por quebras climáticas sucessivas e pela volatilidade dos preços internacionais. O produtor hoje precisa de fôlego, não de novos passivos impagáveis”, afirmou Rezende.
“O agronegócio não pode ser tratado como um setor auxiliar que recebe atenção apenas quando a balança comercial precisa de socorro. Precisamos que o Plano Safra 2026/27 venha acompanhado de uma política clara de renegociação de dívidas e de um comprometimento real com o Seguro Rural. Sem isso, estamos apenas postergando um colapso financeiro que vai atingir desde o pequeno produtor até a economia das cidades que dependem diretamente do sucesso da nossa safra”, disse Isan.
“A nossa expectativa é de que, no dia 30, o anúncio não seja apenas um conjunto de números desenhado pela Fazenda para cumprir calendário. Queremos ver, de fato, a implementação de uma estratégia que proteja a nossa capacidade de investimento. Se o governo continuar tratando a equalização como um gasto primário e não como o investimento estratégico que é, estaremos condenando o próximo ciclo a uma estagnação perigosa. O agronegócio é o motor que mantém o Brasil respirando, e ele exige o respeito de ser tratado com política econômica técnica, e não com medidas paliativas que não resolvem o gargalo do custo do crédito na ponta”, concluiu o presidente do Instituto do Agronegócio.
Fonte: Pensar Agro
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