Agro
Safra de café 2026/27 do Brasil deve crescer com clima favorável e maior produtividade
A safra brasileira de café 2026/27 deve apresentar crescimento significativo, impulsionada por condições climáticas favoráveis, expansão de área plantada e melhorias no manejo das lavouras. De acordo com relatório da Hedgepoint Global Markets, a produção total pode atingir 75,8 milhões de sacas, sendo 50,2 milhões de Arábica e 25,6 milhões de Conilon.
Clima favorece desenvolvimento das lavouras de Arábica
Desde meados de outubro, as condições climáticas têm sido positivas nas principais regiões produtoras de café Arábica, com destaque para Minas Gerais e São Paulo.
Apesar de volumes de chuva ligeiramente abaixo da média ao longo de 2025, a combinação com temperaturas amenas contribuiu para uma boa florada e para o início adequado do desenvolvimento dos grãos. Nas principais áreas cafeeiras, o cenário climático, aliado ao aumento da área plantada e aos tratos culturais, manteve as lavouras em boas condições.
Chuvas em 2026 impulsionam enchimento dos grãos
Durante a fase de enchimento dos grãos em 2026, as chuvas se intensificaram, com volumes acima da média em fevereiro e março. Esse cenário favoreceu o ganho de peso e tamanho dos grãos, o que deve resultar em maior rendimento no processamento.
Com isso, a produção de Arábica está estimada em 50,2 milhões de sacas, o que representa um crescimento de 33,2% em relação à safra anterior.
Conilon mantém produção elevada com boas condições climáticas
As áreas de Conilon também registraram clima favorável ao longo do ciclo, com chuvas consistentes e temperaturas amenas. O avanço da área plantada, o uso de variedades mais produtivas e os investimentos em manejo devem sustentar níveis elevados de produção.
A estimativa é de 25,6 milhões de sacas, configurando o segundo maior volume já registrado no país, com leve recuo de 5,3% em comparação com o ciclo anterior. A colheita já começou em algumas regiões e deve ganhar ritmo entre o fim de abril e o início de maio.
Estoques iniciais mais altos marcam início da temporada
A safra 2026/27 deve começar com estoques iniciais mais elevados. Isso ocorre em meio a um desempenho abaixo do esperado nas exportações do ciclo 2025/26, influenciado pela menor disposição dos produtores em vender diante da volatilidade dos preços e de incertezas no mercado, além dos efeitos de tarifas impostas pelos Estados Unidos em parte de 2025.
Exportações devem reagir com maior oferta
Para a nova temporada, a expectativa é de recuperação nas exportações brasileiras, sustentada pelo aumento da oferta. Ainda assim, o mercado pode seguir com estrutura invertida, com contratos de curto prazo sendo negociados a preços superiores aos de longo prazo.
Os custos financeiros mais elevados também tendem a influenciar o comportamento dos compradores, que podem adiar a recomposição de estoques, afetando o fluxo global de embarques.
Mercado interno mantém uso elevado de Conilon
No mercado interno, a safra 2025/26 foi marcada por maior utilização de Conilon nos blends, devido ao diferencial de preço em relação ao Arábica. Para a temporada 2026/27, a tendência inicial é de manutenção desse padrão.
No entanto, uma safra maior de Arábica pode pressionar os preços da variedade nos próximos meses, alterando parcialmente essa dinâmica.
Produção global e clima seguem no radar do mercado
A expectativa é de que os preços do café robusta permaneçam mais baixos nos próximos meses, refletindo não apenas o aumento da oferta no Brasil, mas também a perspectiva de maior produção em países como Vietnã e Uganda.
Ainda assim, o cenário global segue dependente das condições climáticas, especialmente diante da possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño, que pode impactar a produção nos principais países produtores.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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