Agro
Moagem de cana recua no Norte e Nordeste e produção de açúcar cai mais de 13% na safra 2025/26
Moagem de cana registra queda nas regiões Norte e Nordeste
A safra 2025/26 de cana-de-açúcar nas regiões Norte e Nordeste apresenta retração no processamento. No acumulado até o fim de fevereiro, a moagem totalizou 52,8 milhões de toneladas, queda de 4,1% em relação ao mesmo período do ciclo anterior.
Na divisão regional:
- Norte: 6,9 milhões de toneladas (-5,3%)
- Nordeste: 45,8 milhões de toneladas (-4%)
Além da menor moagem, o período também foi marcado por um direcionamento maior da produção para o etanol, caracterizando um mix mais alcooleiro.
Produção de açúcar despenca mais de 13%
A produção de açúcar nas duas regiões somou 2,988 milhões de toneladas até o final de fevereiro, registrando queda expressiva de 13,8% na comparação anual.
O desempenho reflete tanto a menor oferta de matéria-prima quanto a priorização da produção de etanol pelas usinas.
Produção de etanol cresce com destaque para o milho
Diferentemente do açúcar, a produção de etanol avançou no período. O volume total produzido no Norte e Nordeste alcançou 2,79 bilhões de litros, superando o registrado no mesmo intervalo da safra anterior.
No detalhamento:
- Etanol de cana anidro: 852,8 milhões de litros (+3,4%)
- Etanol de cana hidratado: 1,289 bilhão de litros (-3,2%)
Já o etanol de milho somou 648,5 milhões de litros, sendo:
- 557,3 milhões de litros de anidro
- 91,2 milhões de litros de hidratado
Clima irregular e cenário global influenciam a safra
Segundo Renato Cunha, presidente executivo da NovaBio, a safra tem sido impactada por fatores climáticos e econômicos.
De acordo com o executivo, o período é marcado por chuvas irregulares e variações climáticas acima da média. Além disso, a agenda geopolítica tem exercido forte influência sobre o setor.
Volatilidade externa e tarifas afetam mercado do açúcar
Ainda segundo Cunha, o aumento da participação do etanol no mix produtivo está relacionado ao comportamento das bolsas internacionais, como a ICE Futures U.S. e a ICE Futures Europe.
A atuação de fundos de investimento, focada na volatilidade do mercado global de açúcar, pressionou as cotações, mesmo diante de fundamentos que indicam pequenos déficits na oferta internacional.
Outro fator relevante foi o impacto de medidas comerciais dos Estados Unidos, especialmente o chamado “tarifaço Trump”, que afetou os embarques brasileiros de açúcar para o mercado norte-americano — destino importante para a produção do Norte e Nordeste.
Qualidade da cana apresenta queda no período
Os indicadores de qualidade da matéria-prima também registraram recuo. O Açúcar Total Recuperável (ATR) apresentou queda de 7%, enquanto o índice por tonelada de cana recuou 3% na comparação anual.
Safra avança, mas ainda abaixo do esperado
Até o fim de fevereiro, o setor atingiu 89,5% da moagem estimada para a safra 2025/26 nas duas regiões.
O desempenho por região mostra:
- Norte: 97% da previsão já executada
- Nordeste: 88,5% da estimativa atingida
Estoques de etanol recuam mais de 10%
Os estoques de etanol também apresentaram redução ao final de fevereiro. O volume total armazenado somou 343,7 milhões de litros, queda de 10,25% em relação ao ano anterior.
No detalhamento:
- Etanol de cana: 322,6 milhões de litros
- Hidratado: 143,2 milhões
- Anidro: 179,4 milhões
- Etanol de milho: 21 milhões de litros
- Hidratado: 2,1 milhões
- Anidro: 18,8 milhões
Entre os tipos de combustível, o etanol anidro teve recuo de 9,05%, enquanto o hidratado caiu 11,83%.
Setor segue atento aos próximos meses
O cenário da safra 2025/26 nas regiões Norte e Nordeste segue desafiador, com impacto combinado de clima adverso, volatilidade internacional e mudanças no perfil produtivo.
Diante desse contexto, o setor sucroenergético mantém atenção aos desdobramentos do mercado global, às condições climáticas e às políticas comerciais que podem influenciar diretamente os resultados nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
MP das dívidas rurais entra na reta final sem garantir renegociação aos produtores
A Medida Provisória 1.376/2026, criada para permitir a renegociação de mais de R$ 100 bilhões em dívidas rurais, entra nesta semana em uma fase decisiva no Congresso sem que produtores tenham acesso amplo e uniforme às novas linhas de crédito. A partir de sábado (29.08), o texto passa a tramitar em regime de urgência e começa a bloquear a votação de outras matérias na Câmara dos Deputados.
O primeiro período de vigência da MP termina em 12 de setembro. O prazo pode ser prorrogado por mais 60 dias caso a votação não seja concluída, mas o calendário expõe a distância entre a urgência financeira das propriedades e o ritmo de execução da medida. A comissão mista encarregada de analisar o texto foi instalada em 12 de agosto e ainda precisa aprovar um parecer antes que a proposta siga para os plenários da Câmara e do Senado.
Enquanto o Congresso discute alterações, os produtores enfrentam dificuldades para transformar a autorização legal em contratos. A regulamentação do Conselho Monetário Nacional (CMN) foi publicada em 23 de julho, mas a portaria que permitiu ao Tesouro Nacional equalizar as taxas de juros saiu apenas em 13 de agosto, quase um mês depois da edição da MP.
A Portaria 2.423 autorizou limites próximos de R$ 25,8 bilhões para operações com juros subsidiados. Os recursos foram distribuídos entre dez bancos e sistemas cooperativos, incluindo Banco do Brasil, Banrisul, Banco da Amazônia, Banco de Brasília, Banpará, Sicoob, Sicredi, Cresol, Credicoamo e Banco DLL.
A publicação retirou um dos principais entraves regulatórios, mas não tornou a contratação automática. Cada instituição ainda precisa organizar seus procedimentos internos, verificar o enquadramento das dívidas e analisar a capacidade de pagamento, o risco e as garantias apresentadas pelo produtor. Até agora, não foi divulgado um balanço nacional consolidado que mostre quanto dos R$ 25,8 bilhões já se converteu efetivamente em contratos.
A diferença entre o volume autorizado e o tamanho do problema também aumenta a pressão. Levantamento elaborado a partir de informações do Banco Central aponta que o crédito rural acumulava R$ 197,2 bilhões em saldos considerados problemáticos em junho, equivalentes a aproximadamente 22,5% da carteira ativa.
Desse total, R$ 38,1 bilhões estavam inadimplentes, R$ 20,9 bilhões correspondiam a operações em atraso, R$ 31,6 bilhões haviam sido prorrogados e R$ 106,4 bilhões estavam em financiamentos já renegociados. Os números indicam que o valor disponível nas linhas subsidiadas poderá atender apenas a uma parcela da demanda.
O próprio Banco do Brasil, principal financiador do campo, identificou uma carteira potencial de até R$ 100 bilhões que poderia ser enquadrada na medida. O montante envolve aproximadamente 113 mil clientes, entre produtores inadimplentes e tomadores com contratos anteriormente prorrogados ou renegociados.
A MP atende produtores rurais e cooperativas de produção agropecuária que comprovem perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. Também é necessário demonstrar redução mínima de 30% da renda bruta esperada, causada por eventos climáticos extremos ou pela queda dos preços dos produtos financiados.
A comprovação depende de laudo elaborado por profissional legalmente habilitado. Esse requisito é um dos pontos questionados por representantes do setor, principalmente em regiões nas quais as perdas foram generalizadas e já reconhecidas por levantamentos oficiais, decretos de emergência e registros das próprias instituições financeiras.
Pelas regras gerais, agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) podem contratar até R$ 400 mil, com juros de 6% ao ano. Para os médios produtores do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o limite é de R$ 2 milhões, com taxa de 9%. Os demais produtores podem acessar até R$ 4 milhões, com juros de 12% ao ano.
Nessa modalidade, o prazo de pagamento chega a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação. Os juros, contudo, precisam ser pagos durante o período de carência.
Há condições melhores para produtores que comprovem perdas mais severas. Quem registrar prejuízos em pelo menos três safras, provocados por eventos climáticos extremos, e redução mínima de 40% da renda poderá obter prazo de até dez anos. Os limites chegam a R$ 500 mil no Pronaf, R$ 2,5 milhões no Pronamp e R$ 8 milhões para os demais produtores, com taxas de 5%, 8% e 11% ao ano, respectivamente.
Mesmo preenchendo os requisitos, o produtor não tem aprovação garantida. O risco das operações continua sob responsabilidade das instituições financeiras, que podem exigir novas garantias ou negar o crédito após a análise. Essa condição ajuda a explicar por que a existência de recursos autorizados não significa que todo produtor endividado conseguirá aderir.
O prazo para contratação termina em 12 de novembro. Como parte desse período já foi consumida pela regulamentação, produtores e entidades do setor alertam para o risco de concentração dos pedidos nas últimas semanas, demora na análise dos documentos e esgotamento dos limites disponíveis em determinadas instituições.
No Congresso, a quantidade de propostas de mudança revela a insatisfação com o alcance do texto original. A MP recebeu 144 emendas. Entre as alterações sugeridas estão a inclusão de mais operações de investimento, capital de giro e Cédulas de Produto Rural (CPRs), a ampliação das datas de enquadramento, a redução das exigências para comprovação das perdas e a extensão dos prazos de pagamento.
Também há pressão para que a medida contemple produtores que renegociaram contratos anteriormente, mas voltaram a perder safras, além daqueles cujas dívidas foram transferidas, cedidas ou substituídas por outros instrumentos financeiros. O desafio será ampliar o público sem elevar o custo fiscal a um nível que impeça um acordo para a aprovação.
Para o produtor, a orientação é procurar imediatamente a instituição credora e formalizar o interesse na renegociação. Contratos, extratos das operações, comprovantes de perdas, registros de produtividade, documentos fiscais e laudos técnicos devem ser reunidos antes da abertura do pedido. O protocolo da solicitação também é importante para demonstrar que a procura ocorreu dentro do prazo.
A entrada da MP em regime de urgência aumenta a pressão política, mas não resolve os obstáculos encontrados nas agências bancárias. O resultado da medida será definido menos pelo volume anunciado e mais pela quantidade de produtores que conseguirem superar as exigências, aprovar o crédito e assinar os contratos até novembro.
Fonte: Pensar Agro
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