Agro
Diversificação entre cana, grãos e pecuária vira estratégia para reduzir riscos no agronegócio
A diversificação produtiva vem se consolidando como uma das principais estratégias de gestão de risco no agronegócio brasileiro. Em um ambiente marcado por instabilidade climática, oscilações cambiais, volatilidade dos preços internacionais e aumento dos custos de produção, produtores e empresas agrícolas ampliam a aposta na combinação entre culturas e atividades para proteger resultados e aumentar a resiliência financeira.
A integração entre soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, feijão e pecuária permite reduzir a dependência de uma única cadeia produtiva e oferece maior flexibilidade na gestão operacional e na alocação de capital.
Diversificação reduz exposição aos ciclos do mercado
O modelo tem ganhado espaço especialmente entre grandes grupos agrícolas, que passaram a estruturar operações mais amplas e integradas para enfrentar ciclos distintos de mercado.
A BrasilAgro, uma das principais empresas brasileiras do setor de propriedades agrícolas, é um exemplo desse movimento. A companhia atua em diferentes frentes produtivas, combinando desenvolvimento de terras, produção agrícola e gestão ativa de ativos biológicos, com operações em grãos, cana-de-açúcar e pecuária.
Os resultados recentes da empresa mostram como a diversificação pode ajudar a equilibrar receitas em cenários distintos de mercado.
Soja e milho compensam queda na receita da cana
Nos nove primeiros meses do ano-safra 2025/26, a BrasilAgro registrou receita líquida total de R$ 637,3 milhões. Desse montante, R$ 635,8 milhões vieram da operação agrícola.
A soja liderou o faturamento da companhia, com receita de R$ 277,4 milhões, seguida pela cana-de-açúcar, com R$ 164,1 milhões, e pelo milho, que gerou R$ 61,9 milhões.
O desempenho das culturas reforça como diferentes segmentos podem reagir de maneiras distintas dentro de um mesmo ciclo agrícola.
Enquanto a receita da cana-de-açúcar recuou 31% no período, refletindo queda de 28% no volume faturado, as demais culturas apresentaram crescimento. Excluindo a cana, a receita líquida das operações agrícolas aumentou 15%, passando de R$ 409,3 milhões para R$ 471,6 milhões, impulsionada principalmente pelas vendas de soja e milho.
Estratégia aumenta resiliência das operações
Segundo o CEO da BrasilAgro, André Guillaumon, a diversificação deixou de ser apenas uma alternativa operacional e passou a representar uma ferramenta estratégica para aumentar previsibilidade e reduzir vulnerabilidades no setor agrícola.
De acordo com o executivo, produtores que trabalham com culturas e atividades de ciclos distintos conseguem tomar decisões mais estratégicas, diluir riscos e aproveitar melhor as oportunidades de mercado.
A lógica ganha ainda mais relevância em um cenário de maior seletividade financeira no agro, marcado por juros elevados, aumento da pressão sobre margens e eventos climáticos cada vez mais frequentes.
Integração melhora eficiência das propriedades
Além da mitigação de riscos, a diversificação também traz ganhos operacionais importantes dentro das fazendas.
A integração entre agricultura e pecuária permite otimizar o uso das áreas produtivas, melhorar o aproveitamento de máquinas, infraestrutura e equipes, além de diluir custos fixos ao longo do ano.
O modelo também oferece maior flexibilidade para reagir rapidamente a mudanças climáticas, oscilações de preços ou alterações na demanda global por commodities.
Gestão estratégica ganha protagonismo no agro
Com o avanço da profissionalização do campo, cresce a percepção de que o resultado agrícola depende cada vez menos de uma única variável.
Produtividade, clima, logística, câmbio, custos de insumos e estratégia comercial passaram a compor uma equação mais complexa para produtores e empresas do setor.
Nesse contexto, a construção de um portfólio diversificado de culturas e atividades se fortalece como uma das principais ferramentas para garantir maior estabilidade financeira e competitividade no agronegócio brasileiro.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Primavera chega terça com previsão de safra recorde mesmo sob ameaça de el niño histórico
A primavera começa na noite de terça-feira (22.09) com o plantio da soja 2026/27 já em andamento em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. A nova estação encontra o campo sob condições bastante diferentes: enquanto áreas do Sul enfrentam chuva frequente e risco de temporais, parte do Centro-Oeste ainda aguarda umidade suficiente no solo para ampliar a semeadura com segurança.
Nos próximos dias, uma frente fria deve manter o tempo instável no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, com possibilidade de chuva volumosa, rajadas de vento e granizo. A instabilidade também poderá alcançar Mato Grosso do Sul. Em Mato Grosso, Goiás e no interior do Nordeste, a tendência ainda é de calor, baixa umidade e precipitações mais irregulares.
Para o produtor, a principal preocupação não é apenas saber se vai chover, mas se haverá água suficiente no perfil do solo para sustentar a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas. Pancadas isoladas podem molhar apenas a superfície e estimular uma semeadura prematura, seguida por vários dias de calor e tempo seco.
O plantio da safra 2026/27 começa sob um dos cenários climáticos mais contrastantes dos últimos anos. Prognóstico divulgado nesta sexta-feira (18) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica chuva abaixo da média no Centro-Norte do país e excesso de precipitação no Sul durante a primavera. O El Niño deverá exercer forte influência, mas não será o único fenômeno capaz de determinar onde, quando e com qual intensidade vai chover.
A primavera começa às 21h05 de terça-feira (22), quando a semeadura da soja já estará em andamento em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 366,6 milhões de toneladas de grãos em 2026/27, crescimento de 1,3% sobre o ciclo anterior. O resultado dependerá, em grande medida, da distribuição das chuvas durante a implantação das lavouras.
O prognóstico oficial para outubro, novembro e dezembro aponta déficit de precipitação no centro-norte de Mato Grosso e no norte de Goiás. No sentido oposto, Mato Grosso do Sul, sul de Goiás e sul de Mato Grosso apresentam condições favoráveis à ocorrência de chuva acima da média. As temperaturas devem permanecer elevadas em praticamente todo o Centro-Oeste, com desvios de até 2 graus Celsius no norte mato-grossense.
Essa diferença dentro de uma mesma região exige decisões localizadas. No norte de Mato Grosso e de Goiás, o risco é iniciar o plantio depois de uma chuva isolada e enfrentar calor intenso ou interrupção das precipitações durante a germinação. Em Mato Grosso do Sul e nas áreas mais ao sul de Goiás e Mato Grosso, a maior disponibilidade de água pode favorecer a soja, embora volumes elevados reduzam os períodos disponíveis para a entrada das máquinas.
O Inmet e o Inpe recomendam o acompanhamento das previsões de curto prazo e da umidade armazenada no solo antes da semeadura. A precaução procura evitar falhas de emergência, formação irregular do estande e necessidade de replantio. A decisão também interfere na janela do milho e do algodão cultivados após a soja.
A estimativa preliminar da Conab aponta 49,3 milhões de hectares de soja, aumento de 1,4%, o menor crescimento percentual da área em duas décadas. A produção pode alcançar 181,6 milhões de toneladas, avanço de 0,7%. Para o milho, considerando as três safras, a projeção chega a 148 milhões de toneladas, alta de 2,8%.
O potencial produtivo existe, mas a margem para erros no calendário é menor. Se o plantio da soja atrasar no Centro-Oeste, parte do milho segunda safra poderá ser semeada fora da janela de menor risco climático. Se a implantação for antecipada sem água suficiente no solo, aumentam as despesas com sementes, combustível, mão de obra e operações de replantio.
No Sul, o problema tende a ser o excesso. O prognóstico aponta chuva acima da média nos três Estados, com acumulados que podem superar o padrão histórico do trimestre em até 200 milímetros no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A condição favorece a disponibilidade de água para as culturas de verão e a recuperação das pastagens, mas pode limitar a entrada de máquinas e prejudicar a uniformidade da semeadura.
No arroz irrigado, o alerta é maior em áreas com drenagem deficiente. A combinação de solos saturados e precipitações frequentes pode comprometer a emergência e o estabelecimento inicial das plantas. Soja e milho também ficam expostos à compactação do solo, erosão, lixiviação de nutrientes e redução dos intervalos disponíveis para aplicações e outros manejos.
A Região Sudeste apresenta um quadro dividido. São Paulo, Rio de Janeiro e centro-sul de Minas Gerais podem registrar chuva acima da média, com desvios de até 100 milímetros no trimestre. As condições tendem a favorecer a implantação de soja e milho e a recomposição da umidade nos cafezais e pomares.
No norte e noroeste de Minas Gerais e no Espírito Santo, a irregularidade das chuvas, combinada às temperaturas mais altas, eleva o risco para lavouras de sequeiro. O prognóstico recomenda monitoramento diário nas áreas produtoras de soja dessas regiões. Para o café, chuvas bem distribuídas podem favorecer a florada e o pegamento; precipitações isoladas seguidas por novos períodos secos, porém, podem provocar florações desuniformes.
O cenário é mais restritivo no Norte e no Nordeste. A previsão oficial indica déficit de chuva em praticamente toda a Região Norte, com acumulados de até 200 milímetros abaixo da média em áreas de Roraima, Amazonas e Pará. No Nordeste, também predominam volumes inferiores ao padrão histórico, acompanhados por temperaturas que podem superar a média em cerca de 2 graus.
No Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a irregularidade das chuvas pode atrasar a semeadura e elevar a demanda de água durante a emergência e o desenvolvimento inicial. Nas propriedades irrigadas, temperaturas maiores aumentam o consumo hídrico. Nas áreas de sequeiro, o risco está na grande diferença de volumes entre localidades próximas e até dentro de uma mesma fazenda.
A preocupação com o El Niño tem base concreta. Segundo a nota técnica conjunta do Inmet e do Inpe, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) calcula em 98% a probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro. A projeção considera a possibilidade de a temperatura na região de referência do Pacífico ficar pelo menos 2 graus acima do normal.
A própria avaliação oficial, contudo, adverte que um El Niño mais intenso não produz automaticamente perdas mais graves. O efeito regional depende da interação entre oceano e atmosfera e da atuação de outros sistemas climáticos.
Entre esses fatores estão o Dipolo do Oceano Índico (IOD), o Modo Anular Sul (SAM), também chamado de Oscilação Antártica, e a Oscilação Decadal do Pacífico (PDO). Essas oscilações podem reforçar, deslocar ou reduzir os padrões normalmente associados ao El Niño. A condição do Atlântico também influencia a entrada de umidade no continente e a distribuição das precipitações no Brasil.
Na prática, isso significa que a classificação de “El Niño muito forte” não basta para orientar o plantio de uma propriedade. O produtor precisa acompanhar o comportamento regional das chuvas, o armazenamento de água no solo, a previsão para os dias seguintes e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).
O escalonamento da semeadura, a utilização de cultivares com ciclos diferentes, a revisão da drenagem e a regulagem das máquinas ajudam a reduzir a exposição. No Centro-Norte, o cuidado é não confundir uma pancada isolada com o estabelecimento definitivo do período chuvoso. No Sul, a prioridade é aproveitar os intervalos de tempo firme sem entrar em áreas excessivamente úmidas.
A nova temporada começa com perspectiva de outra colheita recorde, mas o volume final não será definido apenas pela força do El Niño. A combinação entre Pacífico, Atlântico, Oceano Índico e circulação atmosférica deverá produzir riscos diferentes entre regiões e até dentro de um mesmo Estado. Mais do que seguir um único indicador, o produtor terá de ajustar o calendário ao que efetivamente ocorrer em sua área.
Fonte: Pensar Agro
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