Agro
Conflito no Oriente Médio reduz oportunidades de compra de fertilizantes no 2º trimestre de 2026
O segundo trimestre de 2026, tradicionalmente considerado uma janela favorável para a compra de fertilizantes, deve apresentar um cenário mais desafiador neste ano. A avaliação consta na 35ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, divulgada recentemente, e reflete os impactos do conflito no Oriente Médio sobre preços, logística e estratégias de aquisição em nível global.
Historicamente, a sazonalidade da demanda em grandes importadores, como Brasil e Índia, reduz a pressão compradora neste período, favorecendo negociações para o segundo semestre. No entanto, em 2026, esse padrão foi alterado pela instabilidade geopolítica e pelos efeitos sobre a oferta e o transporte internacional.
Segundo a análise da StoneX, a combinação de redução temporária da produção em alguns países, dificuldades logísticas no Estreito de Ormuz e a forte valorização dos preços após episódios de tensão militar diminuiu significativamente as chances de o período oferecer boas oportunidades de compra.
Nitrogenados enfrentam volatilidade e queda no poder de compra
No mercado de fertilizantes nitrogenados, conhecido pela elevada volatilidade, ainda há possibilidade de ajustes pontuais nos preços ao longo dos próximos meses, especialmente com a reabertura parcial de rotas estratégicas.
Apesar disso, a expectativa é de que as condições logísticas não retornem rapidamente aos níveis anteriores ao conflito. Problemas como atrasos, contratos acumulados e baixa disponibilidade de navios continuam sustentando as cotações.
Nos Estados Unidos, o impacto já é evidente no campo. Pesquisa recente do Farm Bureau, realizada com mais de 5.700 agricultores, mostra que muitos produtores não anteciparam compras de fertilizantes. Com a alta expressiva dos preços desde o início das tensões, cresce a dificuldade para aquisição dos insumos necessários.
Entre o início do conflito e o início de abril, os preços FOB da ureia em Nova Orleans subiram cerca de 47%, reduzindo significativamente o poder de compra. Como resultado, aproximadamente 70% dos produtores entrevistados afirmaram não ter capacidade financeira para adquirir todo o volume necessário.
O levantamento também aponta diferenças regionais. No Sul dos Estados Unidos, apenas 19% dos produtores realizaram compras antecipadas, enquanto no Nordeste esse índice chega a 30%. A predominância de compras próximas ao período de aplicação aumenta a exposição à volatilidade e ao risco de restrição de oferta.
Além disso, culturas como algodão e arroz apresentam níveis ainda menores de antecipação, tornando-se mais vulneráveis às oscilações do mercado.
Fosfatados e potássicos enfrentam oferta restrita e preços firmes
No segmento de fertilizantes fosfatados, o cenário é ainda mais restritivo. A oferta global segue limitada devido a dificuldades logísticas no Oriente Médio, paradas programadas de manutenção industrial no Marrocos e incertezas em relação às exportações da China.
Somam-se a esses fatores os altos custos de matérias-primas essenciais, como amônia e enxofre, o que reduz a possibilidade de quedas significativas nos preços.
Esse ambiente eleva o risco de redução da demanda ao longo de 2026, especialmente diante de margens agrícolas mais pressionadas.
No mercado de potássicos, especialmente o cloreto de potássio (KCl), as condições de compra ainda são relativamente menos restritivas quando comparadas às de ureia e fosfato monoamônico (MAP). Ainda assim, o cenário permanece incerto.
Com margens apertadas, produtores podem priorizar a aquisição de nitrogenados e fosfatados, adiando compras de potássio. Além disso, custos elevados de frete marítimo, seguros mais caros e o risco geopolítico continuam pressionando o segmento.
Embora as relações de troca sejam relativamente melhores, especialistas apontam que o ambiente está longe de ser considerado ideal para compras.
Gestão de riscos se torna essencial diante do cenário adverso
De forma geral, o aumento dos preços dos fertilizantes, a rigidez das cotações e a fragilidade financeira dos produtores indicam um período de decisões mais complexas no campo.
Entre as alternativas, estão aceitar custos mais elevados com impacto nas margens ou reduzir o uso de insumos, assumindo riscos para a produtividade. Em cenários mais desafiadores, ambas as estratégias podem ocorrer simultaneamente.
Diante desse contexto, a gestão de riscos e o controle de custos ganham papel central para a sustentabilidade da atividade agrícola em 2026.
Tendência é de normalização lenta e menor espaço para adiar compras
Apesar da reabertura parcial de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz trazer algum alívio, a expectativa é de que a normalização do mercado global de fertilizantes ocorra de forma gradual.
Com o avanço do ano, produtores que precisam garantir insumos para o segundo semestre terão menos margem para postergar decisões, tornando inevitáveis novas negociações — ainda que em volumes menores e em condições menos favoráveis.
O cenário reforça a necessidade de planejamento estratégico e maior cautela por parte dos agentes do agronegócio diante de um ambiente global mais volátil e imprevisível.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Greening, safra menor e queda no consumo pressionam o setor brasileiro
A citricultura brasileira chega à safra 2026/27 pressionada por três problemas simultâneos: quase metade das laranjeiras do principal cinturão produtivo está contaminada pelo greening, a produção deve cair cerca de 10% e o consumo mundial de suco perdeu força depois de anos de preços elevados. Embora continue líder global, o Brasil precisa controlar a doença e ampliar mercados para evitar uma pressão maior sobre produtores e indústrias.
A primeira reestimativa do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) aponta uma produção de 263,15 milhões de caixas de 40,8 quilos em São Paulo e no Triângulo e Sudoeste de Minas Gerais. O volume equivale a aproximadamente 10,7 milhões de toneladas de laranja.
A projeção ficou 3,1% acima da estimativa inicial, divulgada em maio, mas ainda representa uma queda de cerca de 10% diante das 292,94 milhões de caixas colhidas na temporada 2025/26. A recuperação sobre a primeira previsão ocorreu principalmente porque os frutos ganharam peso com as chuvas.
Entre maio e agosto, o cinturão citrícola recebeu 210 milímetros de chuva, volume 51% superior à média histórica do período. O peso médio estimado passou de 160 para 166 gramas por fruto, reduzindo de 255 para 246 o número de laranjas necessário para completar uma caixa.
O efeito positivo da chuva, porém, não elimina os riscos. A colheita está mais lenta e os frutos permanecem por mais tempo nas árvores, expostos a pragas, doenças e queda prematura. Até meados de agosto, apenas 27% da produção prevista havia sido retirada dos pomares.
A taxa média de queda dos frutos foi elevada de 23,7% para 24,1%. Nas variedades tardias, que ainda têm grande parte da produção no campo, a perda projetada chega a 27,3% para Valência e Folha Murcha e a 30,9% para a variedade Natal.
O greening permanece como o maior problema da atividade. O levantamento mais recente sobre a doença mostrou que 47,6% das laranjeiras do cinturão citrícola estavam contaminadas em 2025. A severidade média também aumentou, passando de 18,7% para 22,7% da copa das plantas.
Transmitido pelo psilídeo, um pequeno inseto, o greening não tem cura. A doença reduz a produtividade, provoca queda precoce e produz frutos menores, deformados e amargos. O controle exige monitoramento frequente, combate ao inseto transmissor e eliminação das plantas doentes, especialmente em regiões onde a incidência ainda é baixa.
Na safra 2025/26, o greening foi responsável pela perda estimada de 49,59 milhões de caixas. A doença respondeu sozinha por 13 pontos percentuais da taxa total de queda de 23,2% registrada naquele ciclo.
A pressão não está restrita aos pomares. Depois de quatro anos de resultados elevados, o mercado internacional entrou em uma fase de ajuste. As exportações brasileiras de suco de laranja somaram 746,9 mil toneladas na safra 2025/26, praticamente o mesmo volume da temporada anterior, mas a receita caiu aproximadamente 30%.
Os preços elevados das safras anteriores levaram parte dos consumidores a substituir o suco de laranja por bebidas mais baratas. Problemas de qualidade provocados pelo clima e pelo greening também afetaram o mercado. Na Europa, principal destino histórico do produto brasileiro, o volume adquirido caiu 10,9%. No Japão, a retração chegou a 28,6%.
O aumento das chuvas nesta temporada favoreceu o tamanho das laranjas, mas poderá reduzir a concentração de sólidos solúveis, medida pelo índice brix. Para a indústria, isso significa que pode ser necessário processar mais caixas para obter a mesma quantidade de suco concentrado, reduzindo parte do ganho trazido pelo maior peso dos frutos.
A busca por novos compradores tornou-se, portanto, uma necessidade para equilibrar a cadeia. O produto brasileiro não enfrenta grandes restrições sanitárias, mas encontra tarifas elevadas em mercados com potencial de consumo, como Japão, Coreia do Sul e Índia. A redução dessas barreiras poderia ampliar os destinos e diminuir a dependência de poucos compradores.
Maior produtora mundial de laranja e líder na exportação de suco, a citricultura brasileira mantém escala, tecnologia e capacidade industrial. O desafio agora é impedir que o avanço do greening, a queda da produtividade e o enfraquecimento do consumo reduzam a rentabilidade de uma cadeia que depende de investimentos contínuos para renovar pomares e manter a produção.
Fonte: Pensar Agro
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