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Política Nacional

Especialistas defendem assistência estudantil para indígenas universitários

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A Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) voltada aos povos indígenas deve ser institucionalizada e universal, incentivando o acolhimento dos estudantes nas universidades e institutos federais, defenderam nesta segunda-feira (3) os participantes de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos (CDH). Participaram gestores e representantes de instituições ligadas à educação e aos direitos dos povos indígenas. O debate foi proposto e presidido pelo senador Paulo Paim (PT–RS). 

O valor da assistência estudantil voltada aos indígenas é de R$ 1.400. De acordo com dados do Censo da Educação Superior de 2021, cerca de 46 mil estudantes indígenas estão matriculados em universidades, sendo 13 mil na rede federal, o que representa cerca de 0,5% do total de alunos. Atualmente, o Orçamento da União banca o Pnaes para 16 mil universitários de comunidades indígenas e quilombolas, o que, na avaliação dos debatedores, é positivo, mas ainda está abaixo do necessário. 

No entendimento de Paulo Paim, é preciso dialogar com as comunidades para viabilizar a efetividade dessa política pública, ampliar seu alcance e adequá-la à realidade indígena.

— Trata-se de um avanço significativo [o Pnaes]. No entanto, exige debate direto com as comunidades indígenas sobre a efetividade e operacionalização do acesso a esses recursos, sobretudo diante das dificuldades específicas enfrentadas por estudantes indígenas nas universidades e institutos federais. Como barreiras territoriais, racismo estrutural e ausência de acolhimento — observou o senador.

Diretora de Políticas de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação (MEC), Rosilene Cruz de Araújo, que é indígena da etnia Tuxá, ressaltou ser fundamental buscar a universalização da assistência estudantil aos indígenas em universidades e institutos federais. Para isso, defendeu a institucionalização do programa, como política pública permanente.  

— É preciso pensar a institucionalização e trazer o programa como política pública, porque isso faz com que a gente garanta um orçamento fixo para dar conta dessa universalização — declarou Rosilene de Araújo.

O debate ocorre em um momento de implementação de duas novas leis: a Lei 14.914, de 2024, que institui a Pnaes como política pública permanente; e a Lei 15.169, de 2025, que prioriza a destinação de recursos do Fundo Social (proveniente dos royalties do petróleo e gás natural) para bancar a assistência estudantil.

Vulnerabilidade

A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, destacou que existem “barreiras persistentes” que são impostas aos estudantes indígenas, que vão além do apoio financeiro, como a ausência de acolhimento cultural e a adaptação das faculdades e institutos à realidade do aluno. 

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— Infelizmente, mesmo os estudantes que são atendidos pelas políticas têm uma tendência muito grande de permanecer em vulnerabilidade. Porque não é só a oferta da bolsa que resolve essa situação, são barreiras persistentes que afetam os estudantes indígenas. Muitas vezes, a distância entre o seu local de moradia e as universidades ou os institutos federais, as deficiências das políticas de moradia, de alimentação, de transporte, o aspecto imaterial e simbólico. Mas [algo] que é igualmente importante, que é o acolhimento cultural, a língua, a identidade e [a existência de] um racismo institucional, além da falta de políticas específicas das universidades voltadas para as realidades dos estudantes indígenas. 

Participação direta

O representante da União Plurinacional de Estudantes Indígenas, Arlindo Baré, afirmou que, além de acolhimento e financiamento, é preciso incluir as comunidades nos debates e na elaboração das ações afirmativas, para que consigam se conectar com a realidade dos povos indígenas.

— O Pnaes, além de garantir o financiamento da própria política, precisa garantir a nossa participação direta nessa discussão, nessa possibilidade de garantir que a partir do financiamento a gente consiga que essa política chegue de forma diferenciada, de forma acolhedora para os estudantes indígenas. Esses sujeitos que hoje estão acessando a universidade precisam ser, de certa forma, não só acolhidos pela universidade, mas acolhidos na formulação dessas políticas. 

Coordenador de Articulação de Políticas Educacionais Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas, Edilson Baniwa destacou que apesar de mais de 15 anos de políticas afirmativas no Brasil, o ensino superior para os povos indígenas ainda não conseguiu avançar no tripé ensino, pesquisa e extensão. Ele defendeu investimentos federais na construção de Casas dos Estudantes para acolhimento de indígenas, espaços de convivência culturais, além de bolsas de pesquisa distintas em mestrado e doutorado, pensando nas especificidades e custos ampliados de estudos locais em territórios mais remotos, como os localizados na Amazônia. 

— Você pega as universidades hoje, não tem se disponibilizado recurso para que nós possamos ir lá nos nossos territórios [indígenas] fazer a pesquisa, depois voltar para cá [nas instituições acadêmicas] para compartilhar as nossas experiências. Então eu acho que na parte de extensão precisamos melhorar isso. Porque se não fortalecemos as nossas atividades de extensão, teremos problemas. Você fica quatro, cinco anos na universidade, tendo referências que não são indígenas e aí você não consegue avançar sob o ponto de vista mais científico — disse Baniwa.

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Diversidade e sustentabilidade

A ampliação do acesso e permanência dos estudantes indígenas nas universidades, segundo o diretor de Línguas e Memórias Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas, Eliel Benites, também contribui para avanços no conhecimento sobre sustentabilidade, saúde e enfrentamento à crise climática. Ele afirmou ainda que a busca pelo ensino superior é uma das saídas buscadas pelas comunidades como resposta de autoafirmação diante o processo de violência e tentativa de extermínio. 

— Nós temos que melhorar a política de entrada, a permanência e também de que maneira [o estudante] possa estar voltando, atuando a partir da formação em relação às suas comunidades e seus territórios. […] Temos que garantir a diversidade. Porque uma política com muito boa intenção [pode continuar] uma velha política de homogeneização da cultura e da língua. 

Lei de Cotas 

O Decreto 11.781, de 2023, que regulamentou a Lei de Cotas (Lei 14.723, de 2023), estabeleceu que, no momento da inscrição no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), todos os candidatos devem concorrer inicialmente na ampla concorrência, inclusive os que se enquadram em cotas. Somente se não alcançarem a vaga por essa modalidade, deverão concorrer às vagas reservadas para seus respectivos grupos de cotas. 

De acordo com o diretor de Políticas e Programas de Educação Superior do Ministério da Educação, Adilson Santana de Carvalho, essa alteração no remanejamento foi fundamental para aumentar em 124%, em 2025, o número de acesso de estudantes cotistas nas vagas do ensino superior pelo Sisu.

Para Adilson Carvalho, tanto o decreto como a aprovação das duas novas legislações têm sido essenciais para que o governo federal amplie o acesso e a permanência dos estudantes indígenas no ensino superior. 

— Em 2025, a gente garantiu esse direito a 27.515 estudantes. Juntando os dois anos, 40 mil estudantes [tiveram] o direito a acessar as vagas das universidades pela Lei de Cotas e pelo Sisu, que não estavam fazendo isso porque o algoritmo estava implantado de maneira incorreta, em contrário à lei e ao decreto. 

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Política Nacional

Empregadores propõem negociação coletiva para reduzir jornada para 36 horas em vez de mudar a Constituição

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Representantes de setores como indústria, comércio, transporte, agropecuária, saúde e educação sugeriram nesta segunda-feira (18), em audiência pública na Câmara dos Deputados, que a redução da jornada de trabalho no país, das atuais 44 horas semanais para 36 horas, seja feita por meio de negociação coletiva e não por uma mudança na Constituição Federal.

O debate foi promovido pela comissão especial da Casa que analisa duas propostas de emenda à Constituição (PECs) sobre o assunto, que preveem jornadas de 36 horas semanais e o fim do atual modelo de seis dias de trabalho com um dia de descanso, a chamada escala 6×1.

 “Se for possível deixar a critério da negociação coletiva o incremento dessas quatro horas que serão subtraídas, seria um tanto melhor”, afirmou o diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Alexandre Furlan.

O argumento comum é que diferentes setores têm realidades específicas e poderiam enfrentar aumento de custos, dificuldades operacionais e impactos sobre empregos e serviços.

Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Limites e possibilidades para a redução da jornada de trabalho - perspectiva dos empregadores. Dep. Reginaldo Lopes (PT-MG) e Dep. Alencar Santana (PT - SP)
Reginaldo Lopes (E), autor da PEC que reduz a jornada, e Alencar Santana

A PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), reduz gradualmente, ao longo de dez anos, a atual jornada de 44 horas semanais para 36 horas. Já a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (Psol-SP), propõe uma semana de quatro dias de trabalho com limite de 36 horas, com período de transição de um ano.

Segundo Furlan, reduzir a jornada sem corte salarial elevaria os custos de produção e os preços ao consumidor. “A redução sustentável da jornada deveria ser consequência de ganhos de produtividade e não um ponto de partida”, disse.

Escalas flexíveis
Na mesma linha, Luciana Rodrigues, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, afirmou que o comércio, hotéis, bares e restaurantes têm funcionamento contínuo e demandas variáveis, o que exige escalas flexíveis. “Hoje não temos uma média de 44 horas semanais, mas sim de 39 horas semanais. E como que a gente atinge essa média? É pelas negociações coletivas.”, observou.

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Presidente da Confederação Nacional do Transporte, Vander Costa disse que, com a redução de jornada, o setor de transporte teria de contratar mais de 250 mil profissionais em um cenário de pleno emprego. “No caso específico do transporte, a gente tem que andar com o ônibus urbano sete dias por semana, não há como tirar o direito do cidadão”, disse. Ele sugeriu uma transição de “uma hora a menos a cada ano, durante quatro anos”.

Pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Rodrigo Mello disse as propostas em análise desconsideram as necessidades do campo, onde atividades ligadas a seres vivos não podem ser interrompidas. “A gente não vai conseguir aumentar a produtividade por meio de um decreto, de uma lei ou de uma emenda à Constituição. Então, a premissa está invertida”, criticou.

Contraponto
Autor de uma das PECs, o deputado Reginaldo Lopes rebateu o argumento dos empregadores em favor apenas de negociações e acordos coletivos locais. Segundo Lopes, esse modelo atual não foi capaz de proteger os profissionais mais vulneráveis. “A convenção coletiva continuará forte, mas servirá para as empresas e sindicatos combinarem os formatos das escalas dentro do limite máximo de 40 horas semanais.”, disse.

Na semana passada, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou um acordo com o governo para reduzir a jornada de trabalho no País para 40 horas semanais, com dois dias de descanso, sem redução salarial. Segundo Motta, situações específicas seriam tratadas no Projeto de Lei 1838/26, enviado pelo Executivo, e em convenções trabalhistas.

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Presidente da comissão especial, o deputado Alencar Santana (PT-SP) lembrou que o sentimento majoritário na sociedade e no Parlamento é favorável ao fim da escala 6×1. Ele destacou que a mudança busca garantir direitos sem prejudicar a economia e defendeu que os novos formatos de escala sejam definidos por acordos e convenções coletivas. “As atividades, lembremos, poderão funcionar de segunda a segunda. Os trabalhadores é que terão uma nova escala”.

Segundo Santana, a comissão realizará mais dois debates públicos e o relatório inicial do deputado Leo Prates (Republicanos-BA) será apresentado nesta quarta-feira (20). A comissão fará ainda audiências em Minas Gerais, Santa Catarina e Amazonas. A votação do texto final está prevista para o dia 26 de maio.

Mudança gradual
Representando a CNSaúde, Genildo de Albuquerque Neto propôs aos deputados uma transição gradual a fim de evitar impactos no atendimento de saúde, além de flexibilizações para acomodar escalas de 12 por 36 horas, como, por exemplo, permitir a compensação de horas entre semanas e a não consecutividade das folgas.

Pelos estabelecimentos privados de ensino, Elizabeth Guedes disse que com a redução de jornada as escolas enfrentariam dificuldades para cumprir os 200 dias letivos exigidos por lei, especialmente as que utilizam sábados para aulas do ensino médio. “Falar em reduzir carga de trabalho, mantendo o salário, sem fazer um planejamento objetivo, é fazer poesia, não é fazer política trabalhista”, declarou.

Reportagem – Murilo Souza
Edição – Ana Chalub

Fonte: Câmara dos Deputados

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