Agro
Exportações do agronegócio gaúcho avançam 5% em setembro apesar de guerra tarifária com os EUA
Agro gaúcho cresce em valor, mas perde em volume
Segundo dados divulgados pela Farsul nesta terça-feira (28/10), as exportações do agronegócio do Rio Grande do Sul em setembro de 2025 somaram US$ 1,66 bilhão, representando um aumento de 5% em relação ao mesmo período de 2024 (US$ 1,5 bilhão). Em contrapartida, o volume exportado caiu 4%, totalizando 2,3 milhões de toneladas, ante 2,4 milhões de toneladas no ano anterior.
O setor responde por 73% do valor total exportado pelo estado no período (US$ 2,2 bilhões) e 90% do volume total estadual. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, o agronegócio gaúcho já exportou US$ 10,6 bilhões, demonstrando resiliência frente a desafios externos.
Impactos da guerra tarifária com os EUA
Os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial do Rio Grande do Sul, sofreram um forte recuo nas importações do estado, caindo para 14º lugar no ranking de destinos em setembro. O valor exportado caiu 75%, de US$ 94 milhões em setembro de 2024 para US$ 23,8 milhões em setembro de 2025, com queda de 62% no volume.
Setores específicos tiveram perdas ainda maiores:
- Carne bovina: queda de 70% no valor e 81% no volume.
- Couros e peles de bovino crust: recuo de 97% no valor e no volume.
- Couros e peles preparados: queda de 62% no valor e 51% no volume.
- Sebo bovino: redução de 54% no valor e 61% no volume.
- Fumo e derivados: de US$ 47 milhões para US$ 2,6 milhões, queda de 94% no valor e 79% no volume.
- Produtos apícolas: redução de 8% no valor e 41% no volume.
- Produtos florestais: recuo de 66% no valor e 58% no volume.
- Celulose: queda de 69% no valor e 54% no volume.
- Madeira: diminuição de 67% no valor e 72% no volume.
A carne de frango continua impactada pelos efeitos da gripe aviária e da doença de Newcastle, com leve queda de 3% no valor e 2% no volume exportado.
Carnes e fumo impulsionam crescimento do setor
Apesar das perdas para os EUA, o agronegócio gaúcho apresentou crescimento devido ao bom desempenho da carne bovina, suína e do fumo. O fumo e seus derivados tiveram aumento expressivo, passando de US$ 276 milhões em setembro de 2024 para US$ 391 milhões em setembro de 2025.
O arroz registrou queda significativa, refletindo preços mais baixos do cereal, enquanto o desempenho da carne de frango permanece limitado pelos desafios sanitários.
No acumulado do ano, o setor apresenta alta de 3% no valor, evidenciando a resiliência do agronegócio gaúcho frente a tarifas, sanções e desafios externos.
Principais destinos e parceiros comerciais
A Ásia segue sendo o principal destino das exportações do agro gaúcho, com US$ 960 milhões e 1,84 milhão de toneladas. Em seguida aparecem:
- Europa: US$ 366 milhões, sendo US$ 260 milhões para a União Europeia.
- Oriente Médio: US$ 111 milhões.
Entre os países, destacam-se:
- China: US$ 666 milhões (46,2% do valor exportado).
- Bélgica: 7,3%
- Filipinas: 4,3%
- Suíça: 3,7%
- Coreia do Sul: 3,6%
O Japão e as Filipinas consolidam-se como parceiros importantes, especialmente para a exportação de carne suína, reforçando a diversificação de mercados do Rio Grande do Sul.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
Agro
Matopiba desponta como nova fronteira da produtividade no Brasil
O avanço do agronegócio está mudando o mapa da produtividade brasileira e levando parte do dinamismo econômico para o Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Enquanto o indicador nacional cresceu 18,7% entre 2002 e 2019, três Estados da região registraram alguns dos maiores aumentos do País.
O Piauí liderou o crescimento da produtividade do trabalho no período, com alta de 103%. O Maranhão avançou 86% e o Tocantins, 69,7%. Os resultados acompanham a expansão da fronteira agrícola e indicam que a transformação provocada pelo campo ultrapassou o aumento da área plantada e do volume colhido.
Os dados fazem parte do estudo “Missing the Productivity: Estimating Labor Productivity in Brazilian Municipalities (2002–2019)”, dos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz. Divulgado em julho, o trabalho construiu uma base anual com informações dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros.
O levantamento é um pré-print, versão que ainda não passou pela etapa definitiva de revisão acadêmica. Embora tenha alcance nacional e não seja dedicado exclusivamente ao Matopiba, o estudo revela grandes ganhos de produtividade nas fronteiras agropecuárias e uma evolução mais lenta nos Estados historicamente industrializados.
A produtividade analisada não é o rendimento das lavouras por hectare. O indicador mede quanto valor é produzido por trabalhador. Ele aumenta quando a incorporação de máquinas, tecnologia, qualificação e métodos mais eficientes de gestão permite ampliar a produção sem elevar na mesma proporção o número de pessoas ocupadas.
No Brasil, a agropecuária foi o setor que apresentou o maior avanço entre 2002 e 2019. A produtividade do trabalho no campo cresceu 80,1%, diante de aumentos de 10,3% nos serviços e de apenas 5,4% na indústria.
O resultado ajuda a explicar por que regiões antes com menor participação na economia nacional passaram a atrair armazéns, transportadoras, revendas de máquinas e insumos, instituições financeiras, empresas de tecnologia, indústrias de alimentos e prestadores de serviços.
Para Alan Bueno, professor da Universidade Estadual do Paraná e um dos autores do estudo, o avanço do Matopiba pode ser comparado à transformação ocorrida no Centro-Oeste a partir da segunda metade do século passado.
“O Matopiba é o novo ouro. É o que foi o Centro-Oeste nos anos 1950. Trata-se de um crescimento que faz mudar a realidade regional”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o campo passou a funcionar como ponto de partida de uma rede econômica mais ampla. “O agro converteu-se no catalisador de uma vasta rede econômica, envolvendo transporte, comércio, construção civil, tecnologia, crédito e serviços”, explicou.
A expansão foi sustentada principalmente pela produção de soja, milho e algodão, além da pecuária. O desenvolvimento de sementes adaptadas ao Cerrado, a correção dos solos, a mecanização e a agricultura de precisão permitiram que a região ampliasse sua participação na produção nacional.
Os dados mais recentes indicam que o movimento continuou depois de 2019, último ano abrangido pelo estudo. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia colham juntos aproximadamente 41,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, aumento próximo de 9% sobre o ciclo anterior.
A Bahia deverá liderar a produção regional, com cerca de 15 milhões de toneladas. O Tocantins aparece em seguida, com 9,74 milhões, seguido pelo Maranhão, com 9,05 milhões, e pelo Piauí, com 7,58 milhões de toneladas.
Somente a soja deve alcançar 25,4 milhões de toneladas nos quatro Estados, o equivalente a aproximadamente 14% da produção brasileira da oleaginosa. O resultado consolida o Matopiba como fornecedor relevante para as indústrias de óleo, farelo, rações, carnes e biocombustíveis.
O avanço da produtividade, porém, não significa que os benefícios econômicos sejam distribuídos automaticamente. A mecanização reduz a necessidade de algumas tarefas manuais, ao mesmo tempo que amplia a procura por operadores de máquinas, técnicos agrícolas, engenheiros agrônomos, mecânicos e profissionais de tecnologia e logística.
Sem capacitação local, parte dessas vagas pode ser preenchida por trabalhadores vindos de outras regiões. O aumento da riqueza também depende da capacidade dos municípios de converter maior arrecadação em educação, saúde, saneamento e infraestrutura.
Outro desafio é evitar que o Matopiba permaneça apenas como fornecedor de produtos primários. A instalação de esmagadoras de soja, fábricas de rações, frigoríficos, usinas de biocombustíveis e indústrias de alimentos permitiria agregar valor à produção e manter uma parcela maior da renda na própria região.
O crescimento também aumenta a pressão sobre estradas, ferrovias, armazéns e terminais de exportação. Sem infraestrutura compatível, parte do ganho obtido dentro das propriedades pode ser perdida com fretes elevados, filas e demora no escoamento.
Há ainda o desafio de conciliar a expansão produtiva com a conservação do Cerrado, a regularização fundiária e a inclusão da agricultura familiar. A competitividade futura da região dependerá não apenas do volume produzido, mas também da capacidade de comprovar a origem e a sustentabilidade dos produtos.
O estudo mostra que a produtividade brasileira começou a mudar de endereço. O Matopiba já produz mais por trabalhador e movimenta uma cadeia econômica cada vez maior. O próximo passo será transformar essa eficiência em indústria, empregos qualificados e melhoria permanente da renda da população.
Fonte: Pensar Agro
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